Acusado de roubar aves tinha pai que era ‘ladrão de galinhas’

Afanásio vive com uma tia para fazer tratamento psiquiátrico; seu caso foi parar no Supremo

iG Minas Gerais | Pedro Vaz Perez |

Histórias. Afanásio nega que tenha roubado o antigo vizinho e diz que gosta de estudar e escrever
Uarlen Valério
Histórias. Afanásio nega que tenha roubado o antigo vizinho e diz que gosta de estudar e escrever

Juiz de Fora. O pai de Afanásio Maximiano Guimarães, 25, rapaz cujo processo pelo roubo de um galo e uma galinha em Rochedo de Minas, na Zona da Mata, transita no Supremo Tribunal Federal (STF), era bastante conhecido na região como “ladrão de galinhas”. É o que conta a tia do rapaz Maria da Penha Maximiano. Ela abriga o jovem em sua casa, em Juiz de Fora, também na Zona da Mata, para um tratamento psiquiátrico. Apesar de a tia afirmar que Afanásio já lhe confessou o roubo das galinhas, o garoto negou o fato, talvez por vergonha. “Não roubei, isso é mentira, é falso testemunho”, afirma.

“O pai sempre catava umas galinhas nos terreiros da cidade para comer em casa”, conta a tia. Luiz Guimarães faleceu há um ano por complicações de uma cirrose e, segundo o filho, era alcoólatra e muito violento, mas nunca chegou a ser preso. “Ele era um 157 (artigo do Código Penal sobre o crime de roubo), mas era ‘caneco’, sabia das coisas e não rodava”, relata o homem. Problemas. À primeira vista, Afanásio parece um rapaz normal. Mas a vaidade, o cabelo bem penteado com gel e as roupas bem escolhidas e coloridas escondem uma cabeça confusa. “Ele é esquizofrênico e cria longas histórias na cabeça. Mistura ficção com realidade, dá relatos muito vivos de assassinatos que testemunhou, mas sei que viu aquilo tudo em um filme. Ele não mente, só se confunde”, conta a tia. Durante a conversa com O TEMPO, ele contou que, há alguns anos, tomou um tiro de um policial. “Quase morri, mas dei sorte que o tiro entrou abaixo do cérebro, entre o olho e o nariz”, imagina Afanásio. Mas não há marcas ou cicatrizes no rosto que confirmem o fato, muito menos o olhar dirigido pela tia ao rapaz, em um misto de pena e recriminação. A tia, muito paciente, apesar de rígida e disciplinada, foi acompanhante de idosos por 40 anos. “A família dele nunca deu atenção, nunca teve paciência. Ele é um garoto bom, mas com problemas. Em Rochedo, ficava largado, não estudava nem trabalhava e foi expulso de casa várias vezes. Lá, não tem nada para fazer, e o menino recai na droga”. O jovem confirma o descaso. “Na minha casa ninguém nunca fechou comigo. Por todas as palavras que já recebi, sinto que me odiaram sempre. Sinto que minha mãe tem aquele amor, pois me pôs no mundo, mas ela não me entende”. Drogas. Afanásio tem consciência de que o abuso de drogas e álcool ao longo dos anos o prejudicou. “Uma vez, em uma boate, eu tinha bebido e fumado muita maconha. Estava muito cheio e comecei a ter alucinações, deu confusão”, relata. Ele conta que bebe desde 11 anos, fuma maconha desde os 12 e usa crack desde os 20. “Hoje, estou melhor, pois fiz tratamento. Mas sei que não estou livre, nem nunca vou ficar”, lamenta.

Entenda - O crime. Em maio de 2013, Afanásio Guimarães roubou um galo e uma galinha avaliados em R$ 40, em Rochedo de Minas, na Zona da Mata, de um vizinho e primo distante. A vítima prestou queixa. Após ser intimado, ele devolveu os animais e pediu desculpas. Era tarde. O caso foi parar na Justiça. - STF. A defensora pública do caso tentou arquivá-lo alegando “princípio da insignificância”, que leva em conta o produto do furto. Mas ela não teve sucesso. O caso então foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro Luiz Fux já negou o arquivamento. O caso agora será julgado pela 1ª turma do Tribunal.

Legislação - Supremo. A assessoria de imprensa do Supremo Tribunal informou que a Corte não pode se recusar a julgar nenhum processo. De acordo com os assessores, há outros casos de roubos similares já julgados pelo Supremo, como de barras de chocolate. Cada um teve um desfecho diferente e “não há regra, já que eles são julgados caso a caso”. No furto do chocolate (avaliado em R$ 31,80), em 2012, o ladrão foi condenado a um ano e três meses de prisão. - Passagens.  Afanásio Guimarães não chegou a ser preso por causa do roubo da galinha e do galo. Segundo a Polícia Militar, ele tem outras passagens com detenção, inclusive por depredar uma viatura.

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