Grupo em BH ajuda a superar a perda de um ente querido

Profissionais fazem atendimento gratuito em encontros no centro da capital

iG Minas Gerais | Raquel Sodré |

Sofrimento. Maria Geralda está tentando lidar com a perda de sua casa, depois que um barranco derrubou seis cômodos do imóvel
FERNANDA CARVALHO / O TEMPO
Sofrimento. Maria Geralda está tentando lidar com a perda de sua casa, depois que um barranco derrubou seis cômodos do imóvel

Faz 14 dias que Maria Geralda de Paula Nascimento, 54, perdeu sua casa. Em uma manhã de sábado, um barranco encharcado de água desceu, levando com ele tudo o que estava pela frente. Dos oito cômodos que a casa de Maria Geralda tinha, só sobraram a cozinha e um quartinho.  

“Agora parece que minha ficha está caindo. Tenho um sentimento de tristeza, de impotência, não tenho nem palavras para descrever direito o que eu sinto”, fala entre lágrimas.

As perdas são, talvez, as situações mais difíceis da vida das pessoas. A perda de um bem valioso – como uma casa –, o término de um relacionamento, a morte de um ente querido são exemplos de situações que desencadearão o processo de luto. Nesses casos, a mente deve trabalhar para deixar no passado o objeto que perdemos, razoavelmente esquecido, e ser capaz de estabelecer novas relações amorosas após esses traumas.

Apoio. Para auxiliar quem passou pela perda de uma pessoa próxima, foi criado em Belo Horizonte o Grupo de Atendimento a Enlutados (GAL), coordenado pela psiquiatra Mariel Paturle e pela psicóloga Júnia Drumond.

“O GAL surgiu de um projeto da equipe da Sociedade Brasileira de Tanatologia e Cuidado Paliativo de Minas Gerais (Sotamig) para atender a demanda da sociedade de um espaço para elaborar o luto, uma vez que possuímos poucos profissionais capacitados para lidar com esse tipo de atendimento. Além disso, não sabemos lidar com as perdas e com a morte, o que faz com que as pessoas enlutadas se isolem e sejam condenadas ao silencio”, explica Mariel.

A cada ano, são formados dois grupos que se reúnem em oito encontros semanais na Associação Médica de Minas Gerais (AMMG), no Centro da capital. Os atendimentos são gratuitos, voltados a pessoas que perderam um ente querido há pelo menos dois meses. “Antes desse tempo, as pessoas têm um apoio social, ainda estão anestesiadas, sem a consciência e extensão do acontecido. A partir dessa época é que elas começam muitas vezes a se sentir desamparadas e muito pior emocionalmente”, afirma.

Nessas horas, o apoio de especialistas e pessoas que passam por situações similares é muito bem-vindo. “É verdade que o processo de luto é muito solitário, cada um tem seu tempo, uma dimensão própria da perda. Mas as experiências dos outros vão nos fornecer vias de identificação e de auxílio mútuo”, defende o psicanalista Fábio Belo, coordenador do curso de psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

“Existir esse espaço de vivência e compartilhamento dos sentimentos já é benéfico. As pessoas recebem também informações esclarecedoras sobre esse processo do luto. Trocam experiências e muitas vezes possibilidades de como reinventar a vida são levantadas pelo grupo”, complementa a coordenadora do GAL.

Dor. Seja pela morte de uma pessoa querida, ou por outro tipo de perda, todo luto implica necessariamente em sofrimento. “Trabalhar o luto implica em sofrer, estar triste, assumir sua impotência, falar do objeto perdido e preparar o terreno para aceitar outros objetos. A pessoa tem que sofrer, mas com a certeza que é uma tarefa e que dá resultado. Vale a pena porque o sofrimento vai ceder, vai desaparecer”, garante o professor.

Serviço

Sessões. O GAL terá sessões nos dias 15, 22 e 29 de abril e 6, 13,20 e 27 de maio na AMMG (Av. João Pinheiro, 161 – Centro). É necessária inscrição prévia. Informações pelo telefone (31) 3247 1616.

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