A natureza humana diante da sexualidade e da família

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Na consulta mundial sobre família e sexualidade promovida corajosamente pelo papa Francisco, sempre volta à tona certa compreensão da lei natural e da natureza humana. Por uma parte, pode-se afirmar que, sob certos aspectos, a natureza humana é um dado singular, sempre aberto, pois veio, junto com outros seres, se formando ao longo do processo evolutivo há milhões de anos e ainda não se encontra pronto. É um dado feito. A partir dessa constatação, importa reconhecer que o ser humano é uma espécie que possui constantes antropológicas que geram certo tipo de comportamento singular, propriamente humano. Somos capazes de amor e de ódio, de ser guardiães da vida e seus destruidores. Tal fato dramatiza qualquer juizo ético que deve incorporar a tolerância e a misericórdia. Por outra parte, a natureza humana é histórica, porque é trabalhada pela liberdade que lhe dá configurações culturais e a mantém aberta a novas formas futuras. Esse caráter histórico faz com que nenhum entendimento compreenda tudo do ser humano. Só o entende dentro de limites históricos. Ademais, cabe compreender o potencial e o utópico também como pertencentes ao dado da natureza humana, fazendo com que sempre alimente novos sonhos e procure realizá-los. Dito em poucas palavras, o ser humano é um ser de relações ilimitadas. Ele é, portanto, um em si relacionado. As tendências e as paixões ou o seu capital de desejo e seu complexo universo de impulsos não indicam, efetivamente, nenhuma norma de ação concreta. É aqui que entram a liberdade humana e sua capacidade de elaborar um projeto de vida. Esse projeto de vida se orienta por valores. Esses valores são bons só para mim ou o são para todos? Aqui vale a proposição de Kant: o que é bom para mim deve poder ser universalizado. O projeto de vida põe em ação a liberdade e a responsabilidade. Sem liberdade e responsabilidade não há ética humana em nenhum lugar do mundo. No fundo, o sentido último da ética é fazermo-nos mais plenamente humanos no sentido de fazermo-nos melhores a nós mesmos e de criar condições para que outros sejam também melhores junto conosco. Apliquemos essa visão da natureza humana aos temas relativos à família e à sexualidade. Partimos do fato de que há algo de comum: todos somos igualmente humanos. Há também algo de distinto: somos humanos nos modos chinês, ianomâmi, mapuche e brasileiro. A diferença não destrói a unidade de base, apenas mostra a fecundidade dessa natureza coparticipada, pois ela só se dá na medida em que se realiza de diferentes formas. Nessa quadra nova da consciência globalizada na qual temos acesso a tantas diferenças, importa entender dois dados como diferentes e complementares. Nenhum tem o direito de se impor aos demais; devem existir como diferentes e ser aceitos como tais. Aplicadas essas reflexões ao tema da família e da sexualidade, devemos dizer: importa respeitar as diferenças, identificar os elementos comuns e aprender a conviver com distintas morais e formas de família e de sexualidade. Mas sob uma condição: todas devem tratar humanamente o ser humano, nunca fazê-lo objeto, mas um ser autônomo com valor em si mesmo. A partir daí, estabelecer o diálogo, fazer as críticas e ver como podemos todos nos tratar humanamente, com amor e respeito, de forma que possamos sempre ser melhores. É o mínimo do mínimo de uma possível ética humanitária, hoje tão necessária.

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