Bardo do bar: Bataclã

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salomão salviano
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O dono do Bataclã, conforme me lembro de já ter dito, é uma presença rara em seu próprio estabelecimento. Quase nunca aparece e, quando o faz, é sempre uma passagem relâmpago. Troca algumas palavras com a gerente Suely, dispensa atenção e afagos a Irina, a travesti com quem mantém um relacionamento, e vai embora. Numa determinada noite, ou madrugada, melhor dizendo, já que o movimento por lá só começa depois da meia-noite, contudo e excepcionalmente, ele chegou e ficou. Num determinado momento, foi para trás do balcão, atendeu e conversou com uns poucos fregueses, depois se acomodou em uma das mesas na companhia de Irina e, a certa altura, me convidou, eu que tomava um drink em pé junto ao balcão, para sentar-me junto. Curioso acerca daquela figura um tanto extravagante, assenti, na esperança de um bom bate-papo. Getúlio, que foi batizado assim “em homenagem ao presidente Vargas”, segundo me disse, aparenta ser um híbrido do Don Corleone do Marlon Brando com o Castor de Andrade, lendário bicheiro carioca. Alto e corpulento sem ser propriamente gordo, tem um semblante austero e ligeiramente sombrio, o que contrasta com seu jeito bonachão e conversador. Naquela noite, assim como nas outras em que o vi de passagem no Bataclã, vestia uma calça de brim verde-escuro e uma camisa de botões larga, exageradamente florida, como a desses personagens clichê de filmes que se passam no Havaí. Aliás, em boa medida, com seu bigode basto, Getúlio se parece com o personagem que Tom Selleck vivia no seriado “Magnum”. Some-se a essa estampa muitos colares dourados pendurados no pescoço e muitos anéis nos dedos. Assim que me chamou para sua mesa, Irina se levantou e foi para o palco do karaokê, o que faz indefectivelmente no meio da madrugada, independente de convite ou estímulo. Pudemos conversar descontraidamente durante um bom tempo. Getúlio me contou que nasceu em Cubatão em 1960 e que com 18 anos, naquela mesma cidade da Baixada Santista, abriu seu primeiro bar. “Era um verdadeiro oásis. A cidade vivia o auge de sua industrialização, o auge no mau sentido, digo, porque a poluição já atingia níveis calamitosos. Nos anos seguintes, tanto a má qualidade do ar quanto algumas tragédias, como o incêndio da Vila Socó, e outras relacionadas tanto à violência quanto ao descaso das autoridades em relação a tudo e todos, puseram Cubatão no mapa das mazelas mundiais. Meu bar, que ficava na região Oeste da cidade, era para mim, e acredito que também para a clientela, um refúgio de tranquilidade e bom gosto, porque, você sabe, bom gosto é uma coisa inata e eu sempre tive”, dizia sem nenhuma modéstia o Getúlio. No final da década de 1980 ele se mudou para a capital paulista e ficou por lá durante três anos, antes de vir fixar residência por essas bandas de cá. Sobre esse período em São Paulo, Getúlio mais omitiu que falou. Disse apenas que se mudou na expectativa de amplificar a experiência de seu bar em Cubatão, que se envolveu em alguns problemas – sérios, pelo que pude deduzir – e que teve que deixar a cidade para fugir desses problemas. Chegando aqui, foi morar no bairro Jardim América, bem perto da favela da Ventosa. “Era uma época, ali no início dos anos 1990, em que a região da Ventosa era das mais violentas da cidade, com o tráfico de drogas se expandindo vertiginosamente”, me dizia, enquanto eu pensava na forma um tanto empolada com que ele, Getúlio, se expressava. “Mas foi lá”, ele continuou, “bem na entrada da favela, que eu voltei a montar um bar. Comprei um barracão, reformei e pus para funcionar. Era um espetáculo, apesar de bem simples, muito bonito, muito bem decorado, um paraíso a florescer num lugar onde não se espera que o paraíso floresça”. Modéstia, como se pode inferir, não é mesmo o forte de Getúlio. E enquanto Irina cantava, ele continuou contando sobre o périplo profissional que o levou ao Bataclã. “Fiz freguesia e acabei abrindo outro bar na região, no bairro Salgado Filho, que também fez muito sucesso. Quando apareceu a oportunidade, vendi e comprei este imóvel que virou o Bataclã, essa maravilha, esse recanto de felicidade. O centro da cidade anda meio degradado, mas o Bataclã, eu o vejo como uma Shangri-la em meio ao deserto inóspito”.

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