A hilária poética da finitude

Eva Wilma chega a Belo Horizonte com o espetáculo “Azul Resplendor”, que satiriza personagens do mundo do teatro

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Trajeto. Com dezenas de papéis no cinema, na TV e no teatro, Eva Wilma celebra 60 anos de carreira interpretando nos palcos Blanca Estela, uma atriz que está afastada do ofício há mais de 30 anos
JOÃO CALDAS / DIVULGAÇÃO
Trajeto. Com dezenas de papéis no cinema, na TV e no teatro, Eva Wilma celebra 60 anos de carreira interpretando nos palcos Blanca Estela, uma atriz que está afastada do ofício há mais de 30 anos

Durante um ano, Renato Borghi e Élcio Nogueira Seixas, fundadores do Teatro Promíscuo, de São Paulo, viajaram por países de língua latina situados na América do Sul. O motivo da peregrinação foi o de desenvolver o projeto Embaixada do Teatro Brasileiro, cujo propósito era a troca de referências entre grupos e profissionais teatrais. A empreitada foi produtiva e entre os louros colhidos por eles está a montagem da peça “Azul Resplendor”, que será encenada de hoje a domingo, no Teatro Bradesco.

Assinada pelo peruano Eduardo Adrianzén, um célebre autor de novelas de seu país, e dirigida pelo duo de viajantes, o espetáculo é protagonizado pela atriz Eva Wilma. “Quando resolveram produzir a peça, o Borghi me disse que só poderia ser eu (a protagonista). Daí eu li e me apaixonei pelo texto”, conta a atriz. A montagem também celebra a impressionante marca de 60 anos de carreira e 80 de vida de Eva.

Assim, a decisão da atriz em participar talvez tenha sido guiada não só pelo conteúdo do script em si, mas por tratar de um assunto que faz parte de sua vida: o teatro.

“Azul Resplendor” coloca em cena um grupo de personagens-clichês do mundo teatral para mostrar, de forma cômica e ao mesmo tempo íntima, o que acontece atrás dos palcos. “O autor escreve sobre uma parte do mundo das artes cênicas e fala sobre isso por meio de seis personagens. Ele discute tudo aquilo que acontece nos bastidores do teatro”, conta a atriz.

Dividem o palco com Eva, os atores Guilherme Weber, Dalton Vigh, Luciana Borghi, Luciana Brites e Felipe Guerra. A equipe, por meio de seus papéis, dá vida a um ambiente em que as vaidades, inspirações e ambições são reveladas. “Acho muito interessante que o autor tenha se preocupado em colocar no palco três gerações tão diferentes. Têm personagens na faixa dos 70 anos, outros na dos 50 e também na dos 20. As diferenças entre eles mostram a diversidade de personalidades que ocupam o fazer teatral e são todos fascinantes. Tem o diretor histriônico, atores mais jovens que querem ser bem-sucedidos e o assistente do diretor desapercebido”, descreve ela.

Na trama, Eva interpreta Blanca Estela, uma célebre atriz dramática aposentada precocemente. Questionada se, assim como sua personagem, já teria pensado em desistir da carreira, a atriz antecipa-se e adianta a resposta: “Não, nunca”.

A rápida resposta reflete a importância que Eva dá para sua trajetória artística, que a acompanha desde de a adolescência. Com 14 anos, ela começou a fazer aulas de balé clássico e não saiu dos palcos desde então. Porém, deixou a sapatilha de lado e dedicou-se à carreira de atriz, na TV, no teatro e no cinema, participando de comédias e dramas de sucesso.

Ela interpretou, por exemplo, as gêmeas da primeira versão da novela “Mulheres De Areia” (1973) e foi a heroína de “A Viagem” (1975). No cinema, participou de “Feliz Ano Velho” (1986) e “A Arte de Amar Bem” (1970) além de outras dezenas de produções.

Apesar de não ter preferência entre os formatos, Eva diz que a necessidade de fazer teatro é a maior. “Eu enxergo o teatro como a escola do ator. É onde estou viva, de corpo de inteiro. Claro que gosto de fazer TV e cinema, mas há um momento que preciso voltar para os palcos para evoluir dentro do meu trabalho como atriz”, diz.

Qualidade. A protagonista do espetáculo também não apresenta predileção entre atuar em comédias ou em dramas. Mas aponta qual é o mais fácil. “Se o humor da peça não for inteligente, fica mais difícil fazer comédia que drama”, opina.

Considerando esse argumento, é improvável que Eva tenha tido dificuldades para interpretar seu papel em “Azul Resplendor”. “Ele (Adrianzén) conseguiu montar um excelente texto de humor crítico muito bem feito. Isso faz com que o público se divirta e nós também”, afirma.

O trunfo do espetáculo, no entanto, vai além de revelar o que acontece por detrás das cortinas e fazer rir. Para Eva, a peça trata de algo muito caro e mais difícil de se alcançar. “O mais lindo é ver como ele conseguiu falar sobre a finitude da vida de maneira tão poética, no fim do espetáculo”, completa.

Agenda

O quê. Peça “Azul Resplendor”, com Eva Wilma

Quando. Hoje, às 21h, sábado e domingo, às 20h

Onde. Teatro Bradesco (rua da Bahia, 2.244, Lourdes)

Quanto. Plateia I: R$ 80 (inteira), Plateia II: R$ 70 (inteira) e Plateia III: R$50 (inteira)

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