Comício com jeitinho mineiro

Reunião de 1 milhão de pessoas em prol das Diretas Já na Candelária foi organizada por jornalista de MG

iG Minas Gerais | RODRIGO FREITAS |

Multidão. Há exatos 30 anos, multidão se reunia na Candelária, no centro do Rio de Janeiro, para pedir eleições diretas
FERNANDO SANTOS/FOLHA IMAGEM
Multidão. Há exatos 30 anos, multidão se reunia na Candelária, no centro do Rio de Janeiro, para pedir eleições diretas

Terça-feira, 10 de abril de 1984. Milhares de pessoas desembarcam de ônibus, metrô e carros com faixas, bandeiras e o coração pintado de verde e amarelo. O destino era a Candelária, no centro do Rio. O objetivo era claro: lutar em prol das eleições diretas para presidente da República. Foi um verdadeiro show: 52 oradores, raios lasers com os temas das Diretas Já sendo projetados nas fachadas dos edifícios, adesivos, um balão gigantesco pairando no ar e a união de nomes da política, da música, do rádio, da TV e do esporte. Um coro de 1 milhão de pessoas cantou o hino nacional, em um clima que indicava que a ditadura militar caminhava para o fim.  

O que pouca gente sabe é que um dos grandes organizadores do comício da Candelária – que hoje completa 30 anos e é considerado a maior manifestação popular da história do Brasil – saiu das montanhas de Minas para organizar o evento. Pernambucano de nascimento, mas mineiro de coração, o jornalista Ponce de Leon, 76, era assessor do então vice-governador do Rio, Darcy Ribeiro. Escalado pelo governador do Estado na época, Leonel Brizola, Ponce gastou nada menos do que três meses para aprontar o comício.

“Brizola me deu a tarefa, mas não tínhamos dinheiro. Não podia botar dinheiro público no comício. Então eu procurei os donos de gráficas que eu conhecia e os convenci a me ajudar na empreitada. Conseguimos fazer mais 2,5 milhões de unidades de material impresso, entre cartazes, folhetos, flaps e botoms. Foi uma apoteose. Até um balão eu consegui colocar ali. Queríamos também colocar um banner gigantesco no Cristo Redentor, mas não conseguimos por causa das condições do tempo. Os lasers foram um espetáculo à parte”, relembra, com uma boa dose de saudade, Ponce de Leon.

O jornalista, com sua mente criativa – ele também é publicitário –, ainda escreveu o hino das Diretas. Jogando com as palavras e usando termos retirados do hino nacional brasileiro, Ponce de Leon construiu o cântico, que serviu de embalo para o comício, assim como a música Coração de Estudante, entoada por Milton Nascimento. “Eu via as pessoas chorando, era uma emoção forte. Quando Fafá de Belém soltou uma pomba branca pela paz, muita gente desabou”, conta o jornalista.

Às 16h10, o então presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Sobral Pinto, abriu o comício. Aos 90 anos, ele calou a multidão de 1 milhão de pessoas ao lembrar o Artigo 1º da Constituição Federal. “Todo poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido”, disse o advogado, arrancando um longo aplauso do público presente. Sobral era considerado um símbolo da luta pelo direito que, hoje, parece trivial: votar para presidente.

HISTÓRIA. Apesar dos esforços, as eleições diretas não foram restabelecidas no ano seguinte. Duas semanas após o comício da Candelária, o Congresso derrubou a Emenda Constitucional 5, de autoria do deputado federal Dante de Oliveira, que restabelecia o direito do voto a presidente. Os brasileiros só votariam novamente para o cargo em 1989. “Mas conseguimos plantar uma bela semente com aquele movimento. Tenho certeza disso. Essa foi nossa vitória”, diz Ponce.

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