A lei da equivalência das janelas

iG Minas Gerais |

Para quem interessar, recomendo a leitura de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. O livro só vale – e quanto! – por si mesmo, verdadeira obra-prima entre as várias outras que o autor escreveu. No capítulo LI – “É Minha!” –, sempre encanta a reflexão do nosso maior escritor, um primor de ironia no campo da moral, bem aplicável ao Brasil de hoje em matéria de assalto à moral pública, capitaneado pelo desmoralizado PT. Vamos ao texto que, se não é curto, também longo não é, considerada a valiosa contribuição que oferece para melhor compreender a crise destrutiva do código de ética que toda nação respeitável adota. Não deve ser à toa que, no âmbito nacional, a trancos e barrancos, ainda existe, conquanto abalroada rotineiramente, uma Comissão de Ética Pública, além – pasmem, senhores! – de duas outras no Congresso Nacional, muito debilitadas nos dias correntes por motivos sabidos, conquanto ainda existentes no papel, até porque, como se diz, o papel aceita tudo. Mas vamos ao texto machadiano que, na fala de Brás Cubas, confessa: “descobri uma lei sublime”, em tempos remotos, quando ainda se observava a norma jurídica moralizante, “a lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência” do povo. Acrescento, pedindo vênia ao grande escritor, para propor uma sugestão: no caso brasileiro, a proporção não deve ser a de um por um. De fato, para pôr a funcionar a ideia de Cubas entre a nossa gente, a proporcionalidade precisa ser ampliada no lado das janelas a serem abertas. Na verdade, essas, consideradas a frequência dos escândalos e a ousadia dos meliantes, geralmente comissários do partido, agridem qualquer instituição, mesmo a mais emblemática de todas, a Petrobras. Multiplicar por dez janelas ainda é uma solução insuficiente. Todavia, vá lá. Se não aliviar a artilharia invasora, multiplique-se por 20, 50, cem, ou quem sabe por todos os estoques existentes no país. No caso da mencionada Petrobras, importem-se janelas, o que imagino resultar necessário. Se, entretanto, o processo de apropriação superar a mercadoria estocada no mundo, haverá sempre alternativa. Sabe qual é uma, leitor? Chamar o ministro-presidente do STF para arranjar o funcionamento das janelas coletadas. Bem-instaladas, mãos pesadas e corajosas em cima dos malfeitores, o processo contra a roubalheira despudorada pode produzir efeitos moralizantes, senão acabando, pelo menos mitigando o peso em cima da “bolsa da Viúva”, como diria Elio Gaspari. Porém, convém alertar: a coisa tem de começar logo. Não dá mais para protelar a limpeza, começando-se o combate, no mais tardar, nas eleições vindouras. A hora é propícia. Se preciso, junte-se à turma combatente a alma do jesuíta d. Marcos Barbosa, doce e suave poeta especialista em varrições, com seus versos inesquecíveis. E nada de militares. Não é mais hora nem acredito que aceitem entrar nessa seara.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave