“Estamos vivendo um tempo muito cinzento, uma ditadura disfarça"

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DUKE
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Chegaram-me algumas ponderações sobre meu artigo da semana passada. Para alguns, passei a mão na cabeça da esquerda (uma denominação completamente fora de moda, mas que insiste em sobreviver); para outros, desconheci (ou ainda desconheço) o papel das Forças Armadas em 1964. Segundo eles, além de nos salvar do comunismo, os militares só violaram a ordem institucional do país porque tiveram o apoio de políticos e empresários, mas, sobretudo, do povo brasileiro, intimidado, com razão, pelo que se passava no país. Com certeza, há acertos e enganos nas ponderações que recebi. De propósito, deixei de me referir à direita, que, a meu ver, também está totalmente fora de moda. Aliás, o advogado Sacha Calmon vem sugerindo, em artigos publicados regularmente na imprensa, a criação de um partido de centro-esquerda. E por que não, também, o de centro-direita? Afinal, a democracia é um imenso desaguadouro! Mas, como ia dizendo, as duas – esquerda e direita –, como me disse outro dia meu irmão Luís Lara Resende, também jornalista, podem não ter o mesmo pai, mas, seguramente, têm a mesma mãe. Qual seria, por exemplo, pergunto eu, a diferença, para ficar só nesses dois, entre Hitler e Stálin? Foi ainda Luís quem me lembrou o que teria dito Luiz Carlos Prestes a Nikita Kruschev na época: “O Brasil está indo para uma ditadura; só não sei se será a nossa ou a deles”. Prestes, um ex-militar, disse isso sem nenhuma convicção, pois ele sabia que a ditadura com a qual sempre sonhou jamais vingaria aqui. Como se vê, o golpe militar de 1964, 50 anos depois, ainda desperta muitas paixões, mas também muitos interesses. Tem gente aí, na política ou fora dela, e dos dois lados, que posa de democrata, mas, na realidade, nunca o foi. Mas a verdade (ou o que me parece verdade?) precisa ser dita e repetida: tanto de um lado quanto do outro, não se procurava, naquela terrível e tenebrosa oportunidade, defender a democracia e, portanto, a liberdade – esta, sim, a mais temida das inimigas. Parte da esquerda alimentava algum sonho. Lutava por um regime semelhante ao de Cuba, imposto por Fidel Castro, que, no início, surgiu como o grande libertador. Foi ídolo da minha geração e de várias outras, mas enganou a todas. Implantou em seu país, e ainda a exportou (é imperdível a entrevista da ex-deputada venezuelana Corina Machado ao programa “Roda Viva”), férrea ditadura, com todo o aparato a que tem direito, como o “paredón”. Passou-se mais de meio século da derrubada do execrável Fulgêncio Batista, mas a ditadura em Cuba permanece. O engraçado (isso será mesmo engraçado?) é que, em 2014, passados 55 anos, ainda há integrantes do governo da presidente Dilma Rousseff e intelectuais brasileiros que não só defendem Fidel, mas, com frequência, o homenageiam como se fosse o maior libertário vivo da América Latina. Tão libertário que os 500 médicos cubanos pertencentes ao (bom) programa Mais Médicos, hospedados no hotel Excelsior, em São Paulo, vítimas da indignidade, do desrespeito e, igualmente, do trabalho escravo, são vigiados por agentes do seu país. Vivem aqui, em nossa casa, dentro das regras e das limitações que viviam em Cuba! É como se Cuba tivesse, em nosso território, uma filial da sua ditadura! São muitas as lembranças que ultimamente me têm surgido. Tantas que a análise do que disse a notável Adélia Prado fica para depois. Preciso de espaço e ânimo para abordar o que ela disse.

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