Um homem 'felomenal'

iG Minas Gerais |

Ilustração Acir Galvão
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Quando se perde alguém, é natural sentir uma vontade muito grande de recuar rápido no tempo e querer aproveitar mais daquela pessoa querida que se foi. Ainda bem que, em se tratando de um grande artista, retornar para um abraço virtual necessário e consolador está a um passo da tela da TV ou a um click do mouse no computador. Recebi a notícia da morte de José Wilker, às 11h30 da manhã de sábado, dia 5 de abril, comendo um salgadinho e bebendo um refrigerante numa lanchonete de Barbacena, no interior de Minas, por meio do comercial do “Jornal Hoje”, apresentado pelo jornalista Rodrigo Bocardi. Como a TV estava no mudo, só escutei um cara da mesa ao lado falando para a amiga: “Você viu quem morreu? José Wilker teve um infarto fulminante”. Minha respiração parou e, completamente incrédulo, levantei e pedi para a atendente atrás do balcão aumentar o volume da TV. Enquanto o jornalista balbuciava alguns dizeres de como ele havia partido, minha memória já estava percorrendo uma carreira de mais de 40 anos dedicados à arte, uma trajetória de um artista que sempre admirei. Com 67 anos, Wilker desenhou nos palcos de teatro e nas imagens da TV e do cinema grandes pinturas, moldou personagens inesquecíveis que insistem em aparecer não só no meu imaginário, mas na memória de um país inteiro. A comoção nacional pela perda tão rápida, impactante e inesperada de um ator, diretor e crítico desse quilate é explicável ao recordarmos do galanteador de “Roque Santeiro” (1985), do hilariante bicheiro de “Senhora do Destino” (2004) ou do bronco e agressivo moralista de “Gabriela” (2012). A música-tema do personagem Roque, os bordões “felomenal” e “o tempo ruge, e a Sapucaí é grande”, de Giovanni Improtta, e o fúnebre “se arrume que eu vou lhe usar”, de Jesuíno Mendonça, parecem morar entre os nossos neurônios e querer ficar na nossa mente para sempre. A sequência de papéis de sucesso de Wilker passou por “O Bofe” (1972), “Anjo Mau” (1976), “O Salvador da Pátria” (1989), “Fera Ferida” e “Renascer” (1993), “A Muralha” (2000), “JK” (2006), “Amor à Vida” (2014), seu último trabalho na TV, e tantos outros. Toda vez que o via na televisão, tinha certeza de que o papel tinha sido escolhido a dedo para ele, tamanha a forma exata como se encaixava, seja no drama ou na comédia. Wilker era unânime. Minha mãe sempre falou com gosto dos personagens dele, até meu pai, que detesta novela, o elogiava. Não é qualquer um que ocupa um cargo singular e uníssono na história assim. Apaixonado pelo cinema, o ator participou de filmes como “Xica da Silva” (1976) e “Bye Bye Brasil” (1979), ambos de Cacá Diegues, “Dona Flor e seus Dois Maridos” (1976) e “O Homem da Capa Preta” (1985). Fez ainda o personagem Antônio Conselheiro em “Guerra de Canudos” (1997), alguns recentes trabalhos, como “Sexo com Amor?” (2008) e “Casa da Mãe Joana 1 e 2” (2008/2013) e foi diretor-presidente da Riofilme. Isso sem contar na carga crítica e sentimental que carregava pela sétima arte, sendo muitas vezes comentarista das noites do Oscar da Globo. Foram mais de 40 novelas, mais de 60 papéis no cinema, quatro trabalhos como diretor e dezenas de personagens no teatro. Além disso, representou na vida um voraz intelectual das artes. Com a perda desse indelével talento, há de se respeitar uns minutos do dia para rever sua trajetória, rir de suas cenas e relembrar seus dramas. Um artista desse porte merece pra sempre ser lembrado e homenageado. Metade de mim é saudade. A outra metade é orgulho, uma imensa vontade de dar a ele um Oscar pela riqueza e dedicação à arte nacional.

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