Redomas se quebram

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salomão salviano
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Confesso que a capa regional de uma revista de circulação nacional me espantou. Junto à foto de uma garotinha relaxando numa banheira, encontro os dizeres: “Banhos de espuma, massagens e cromoterapia para crianças podem custar até R$ 440 nos spas da capital”. Indagando-me se havia entendido bem, abri a matéria para ler. Segundo a reportagem “Um dia de princesa”, um pacote para meninas a partir de 5 anos dá direito a massagens, escalda-pés, esfoliação corporal, máscara facial de relaxamento e banho com pétalas de rosas. E me pergunto: desde quando criança de 5 anos precisa disso? Já outro oferece o “day infantil” para crianças a partir de 2 anos, com duração de quatro horas, incluindo massagem relaxante, banho de piscina, manicure, pedicure, penteado e maquiagem com direito a cílios postiços. COMO É QUE É??? A falta de bom senso é preocupante. Pais e mães, pelo amooor de Deus, deixem seus filhos crescerem como crianças, sem exageros, sem mimos absurdos e caros, com os pés no chão. Sobrecarregada de atividades extracurriculares, como balé, judô, inglês, kumon, teclado etc., etc., a meninada deveria aproveitar o tempo que lhes sobra para serem crianças. Brincar de bola, andar descalças, rolar com o cachorro no tapete e até tomar banho de chuva ou de bacia como eu costumava fazer na minha infância. Nada disso me estragava, e garanto que “desestressa” mais (se é esse o problema) que quatro horas de massagens com óleos essenciais, banhos de espuma e de rosas. Não seria melhor deixar esses mimos para adultos, caso sintam necessidade? Seria ótimo se os pais pudessem assistir com seus filhos a alguns filmes da Disney com direito a pipoca e guaraná; assim como peças infantis que estivessem em cartaz. A meninada adora, e a criança que habita no adulto, também. Árvores falantes, bichos divertidos, bruxas más... Criança ama a fantasia, então, por que levá-las antes do tempo a um mundo real de narcisismo e exageros? Criada entre sete meninos, nunca senti falta de massagens com óleos essenciais. Andava descalça, comia goiaba no pé com bicho e tudo, convivia bem com meus machucadinhos e esfolamentos. Cabelos embaraçados? Nada que um creme rinse, hoje chamado de “condicionador”, não resolvesse. Poças d’água me divertiam; quanto mais fundas e barrentas, mais atraentes se tornavam. Delícia também era correr atrás de redemoinhos criados pelos ventos na terra seca para conferir se dentro deles morava o capeta. Crianças felizes que éramos, adorávamos ir em busca de emoções. Enfim, outros tempos, outra realidade... Na revista, uma leitora se manifestou: “Hoje é um banho de espuma, massagem, cromoterapia e clínica de estética. Amanhã, a cadeira do analista e pílulas”. Concordo, pois, ao crescerem, descobrirão que o mundo real não é esse “mar de rosas” ou “Jacuzzis de rosas” em spas mirabolantes. O mundo real passa pelas dificuldades para poder chegar adiante com equilíbrio, força e serenidade. Se perguntarmos a qualquer pai ou mãe sobre o que esperam para o futuro dos seus filhos, provavelmente ouviremos “que eles sejam felizes”. Valor justo e louvável, mas que leva alguns pais ao equivocado caminho de tentar prover os filhos da felicidade permanente, não medindo esforços para que suas vidas sejam um eterno conto de fadas. Se quisermos que nossos filhos CRESÇAM e sejam felizes, precisamos prepará-los para os grandes desafios que a vida, cedo ou tarde, lhes irá impor. Um dia, todos lidarão com as decepções, com as perdas, com as injustiças, com as frustrações por sonhos não concretizados, enfim, com tudo o que faz a vida ser o que é. Famílias chegam a se endividar para oferecer aos filhos festas de aniversários estratosféricas, viagens incríveis ou os últimos recursos tecnológicos, e tudo isso sem nada lhes exigir em troca, nem mesmo um muito obrigado. Será que educam ou viciam? Há alguns anos, eu e meu marido optamos por levar nossas filhas à Índia. Ter passado com elas 15 dias num país desprovido de luxos e absolutamente carente de necessidades básicas, com uma cultura completamente diversa, foi o melhor presente que podíamos ter-lhes dado. E vê-las trabalhando durante quase dois anos na alfabetização de adultos, quando ainda eram adolescentes, foi um dos melhores presentes que nos proporcionaram. Os pais precisam ser lembrados de que, na vida real, os filhos não serão príncipes ou princesas, as redomas em que estão crescendo serão quebradas e precisarão enfrentar os desafios e as privações que a vida lhes irá impor, e aí fica a grande dúvida: estarão preparados? Provavelmente, não.

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