Enfim, um perigo real e imediato

Marvel se inspira nos anos 70 e entrega melhor filme da saga ‘Os Vingadores’

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Dupla dinâmica.Em meio à paranoia, flerte do casal protagonista solta faíscas em química ‘opostos que se atraem’
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Dupla dinâmica.Em meio à paranoia, flerte do casal protagonista solta faíscas em química ‘opostos que se atraem’

A decisão da Disney de comprar a Marvel faz muito sentido. Super-heróis vestem roupinhas bonitas, lutam pelo bem, sempre vencem no final – e vendem brinquedos. Ou seja: numa época em que o espectador se cansou de contos de fadas – que precisam ser reinventados em longas como “Detona Ralph” ou “Frozen” –, filmes de heróis são os novos desenhos de princesa do estúdio. Uma fórmula fácil, previsível e, até agora, com um público fiel que engole qualquer coisa.

Talvez o melhor exemplar disso seja o Capitão América. Espécie de Superman da Marvel, ele é incondicionalmente bonzinho, bonito, está sempre certo e é invencível. Leia-se: um porre.

É por tudo isso que o mérito de “Capitão América 2: O Soldado Invernal” em construir um ótimo longa em torno do herói – o melhor da Marvel fora dos universos “X-Men” e “Homem Aranha” – é ainda maior. Partindo de uma boa reviravolta no fim do primeiro ato, que pela primeira vez na saga dos Vingadores eleva os riscos e faz o espectador temer pelo que pode acontecer com os personagens, o filme entrega uma história imprevisível e envolvente que bota as produções anteriores do estúdio no chinelo e deixa o público realmente curioso pelo que está por vir.

O grande segredo do roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely é entender que Steve Rogers (Chris Evans) é um personagem que enxerga o mundo em preto e branco / bem e mal / certo e errado. E a única forma de deixar isso interessante é tornar o universo ao seu redor cinza. Se o Capitão América é o defensor das instituições, é preciso questionar essas instituições para que o herói viva uma crise capaz de humanizá-lo e deixá-lo mais identificável.

É exatamente o que “Soldado Invernal” apresenta ao revelar, após uma sequência de ação inicial, que a S.H.I.E.L.D. pode estar comprometida e ninguém ali dentro é confiável. Isso faz com que Rogers e a Viúva Negra (Scarlett Johansson) se tornem fugitivos caçados pela própria organização, em busca da verdade e de quem está por trás da conspiração.

Os diretores Joe e Anthony Russo (do seriado “Community”) mantêm o ritmo do longa calcado, não apenas nas cenas de ação, mas na paranoia que toma conta dos protagonistas e na ideia de que ninguém pode ser o que parece. Não é por acaso que a trama lembre os thrillers políticos dos anos 1970.

Nenhum outro longa da saga dos Vingadores soube utilizar tão bem o contraste entre suas raízes fantásticas e o ambiente urbano e realista em que elas se desdobram. Porque esse é exatamente o conflito do Capitão América: um ser utópico tentando defender valores anacrônicos em um mundo decrépito e moralmente decadente.

Com esse subtexto, a trama histórica envolvendo os nazistas, que parecia cartunesca e rasa no longa anterior, ganha densidade temática. E o resultado é a presença de atores como Robert Redford – que não faz filmes para pagar conta e não sai de casa por qualquer coisa –, que parece realmente estar ali porque quer, proferindo diálogos em que acredita, como o burocrata Alexander Pierce.

Além de Redford, o longa oferece bons momentos a todo o elenco, de Samuel L. Jackson, à boa adição de Anthony Mackie como o Falcão, e a Evans e Johansson, cuja química carrega boa parte de “Soldado Invernal”. Verdade seja dita, a produção ainda é um filme da Marvel e algumas das decisões mais ousadas são deixadas de lado no final, em favor de revelações batidas que fazem o Capitão América lutar (ainda que dentro do tema) por um heroísmo descabido no que o filme propôs até ali.

Ainda assim, essa é a primeira vez que a parceria Marvel-Disney entrega um filme que se sustenta como uma boa obra por si só – e não como parte de uma fase 1 ou 2 ou 3, que soa simplesmente como pseudoelaborismo organizacional para causar ereção em nerds. Um longa que deixa a sensação de estar sendo visto porque é bom, e não por obrigação.

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