A compulsão pelo trabalho

Dirigidas por Grace Passô, Débora Falabella e Yara de Novaes chegam à cidade com o espetáculo “Contrações”

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Invasiva. Débora Falabella vive funcionária que tem sua vida amorosa invadida por sua gerente (Yara de Novaes) no trabalho
rodrigo hypolitho/divulgação
Invasiva. Débora Falabella vive funcionária que tem sua vida amorosa invadida por sua gerente (Yara de Novaes) no trabalho

A natureza primordialmente coletiva do fazer teatral, muitas vezes, não dá conta de saciar desejos de algumas trocas artísticas. É caso de Débora Falabella e Yara da Novaes, que após trabalharem juntas algumas vezes, sentiram a necessidade de um enredo que as colocasse em relação direta, na cena. O espetáculo “Contrações”, que faz temporada a partir de amanhã no CCBB, aguça a relação das duas, ao abordar uma relação neurótica no ambiente de trabalho.  

A peça, do Grupo 3 de Teatro, traz Débora Falabella e Yara de Novaes em cena, num escritório, onde elas expõem essa relação distorcida. O texto do britânico Mike Bartlet foi escolhido após as duas atrizes procurarem obras que pudessem colocá-las juntas no palco. “Fizemos o ‘Continente Negro’, mas as cenas da Yara eram com o Ângelo (Antônio) e as minhas também. Nós apenas nos cruzávamos”, relembra Débora. “Umas das premissas para a escolha desse novo texto era justamente essa: que conseguíssemos ter uma contracena mais direta e intensa. A outra era buscar textos contemporâneos que falassem do nosso tempo. Foi assim que chegamos ao Bartlet e estudamos várias obras dele até chegar a esse texto”, relata Yara.

Yara e Débora convidaram a diretora Grace Passô, ex-integrante do Espanca!, para dirigir o trabalho. “O Bartlet é um autor que se inspira no (George) Orwell, que criticava o aparato criado pelo Estado comunista. A crítica do Bartlet, no entanto, se direciona ao capitalismo. Queríamos uma diretora que fosse jovem para que trouxesse um olhar fresco e contemporâneo, sem o ranço dos tempos vividos nos anos 1960 e 1970”, destaca Yara.

Curadoras da edição 2012 do Festival Internacional de Teatro (FIT), Yara e Grace puderam compartilhar seus interesses e visões de teatro. “Eu conheço a Yara há bastante tempo e sempre conversávamos sobre fazer algo juntas. A experiência (da curadoria do FIT) nos fez assistir e conversar sobre espetáculos, refletir sobre a produção da cena contemporânea e apontar desejos”, destaca Grace.

Diretora conhecida por seu lirismo e por assinar também texto de suas encenações, Grace encontrou na obra de Mike Bartlet algo que sempre lhe foi caro. “Existe uma potência da palavra ali. A palavra é a ação. O texto nos apontou várias possibilidades: a chance de colocar as duas atrizes em cena, num trabalho de pesquisa, pensando o teatro e o que se quer dizer com ele”, ressalta.

A potência da palavra, referida por Grace, pôde ser testada em ensaios abertos que foram feitos no interior de São Paulo, antes da estreia, por meio de um projeto de circulação. “Contamos com o público desde o início – geralmente ele só entra na parte final – e, de alguma maneira, isso nos permitiu vislumbrar o que poderia ser essa cena com esse texto. Além disso, o público nos ajudou a responder muitas perguntas, dentro do próprio enredo”, avalia Yara.

Conhecida pelo grande público por sua trajetória na televisão, Débora se surpreendeu com o diálogo criado por esses ensaios. “Algumas pessoas são atraídas pelo meu nome e por eu ser uma artista conhecida, mas o interessante é perceber que essa atração se modifica e a pessoa vai ao teatro para conversar sobre algo que não tem nada a ver com televisão”, destaca.

PARCERIA. Juntas há nove anos com o Grupo 3 de Teatro, que tem Gabriel Fontes Paiva como terceiro integrante, a dupla Yara e Débora tenta encontrar espaços na atribulada agenda para desenvolver seus projetos. “Ainda bem que somos apenas três”, brinca Débora.

Antes de trabalhar com Yara, Débora já a conhecia. “Ela é um pouco mais velha que eu e sempre tive nela uma referência no teatro”, destaca Débora. Na longa trajetória de amizade e trabalho, as duas geralmente se colocam nos papéis de diretora (Yara) e atriz (Débora), com trabalhos como “Noite Brancas”, “A Serpente” (primeiro espetáculo dos Grupo 3 de Teatro), “O Amor e Outros Estranhos Rumores”. “Adoro ser dirigida pela Yara. Tenho muita confiança nela, mas ela mesma me diz que é importante ser dirigida por outros diretores. Aliás, isso é um lado bom de estar em um grupo: exercitar outras funções”, destaca Débora.

Agenda

O quê. “Contrações”

Quando. Desta sexta a 04 de maio. Sextas, às 20h; sábados e domingos às 19h

Onde. Centro Cultural Banco do Brasil (praça da Liberdade, 450, Funcionários)

Quanto. R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)

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