Posso dar uma voltinha?

iG Minas Gerais |

Os negócios de compra e venda de automóveis entre particulares já foram, sem dúvida, bem mais movimentados do que na atualidade. Em um passado remoto, bastava um anúncio nos classificados dos jornais, uma boa “guaribada” no bólido e aguardar o telefone tocar, combinar o local do encontro e torcer pela realização do negócio. A violência que impera nos grandes centros urbanos e que dispensa comentários acabou por restringir, entre outras atividades, essa, que foi muito comum em décadas passadas. Não são poucas as pessoas que conhecem alguém ou têm alguma informação a respeito de um negócio desses que tenha acabado de forma indesejada e perigosa, com o pretenso comprador, de arma em punho, tomando de assalto o veículo à venda. O momento escolhido para ação do bandido travestido de comprador geralmente é na hora da certeira e tradicional “voltinha” no quarteirão para avaliar a “máquina”. Um caso inusitado aconteceu com um conhecido que nos relatou em detalhes o aperto que passou há muitos anos, quando tentava vender sua moto CB 400, a de maior cilindrada comercializada naquela época. No mesmo dia em que saiu no jornal o pequeno anúncio divulgando as características, cor, ano, modelo e detalhes da motocicleta, um cidadão ligou marcando justamente na hora do almoço para conhecer a moto.</CW> Até aí tudo bem, momento de folga sem prejuízo ao trabalho, pensou o incauto vendedor. Do outro lado da linha, o sujeito pareceu muito educado, interessado, conhecedor de motos, deu seu nome, mas não disse em que trabalhava. Na hora aprazada a campainha toca. Esperançoso e achando até muito rápido o processo de venda, o amigo desceu e foi ao encontro do interessado. De um Opala branco, quatro portas, dos anos 70 (este episódio aconteceu em meados dos anos 80), com rodas de tala larga, mas com a carroceria toda comida pela maresia, como se tivesse passado uma semana dentro do mar, desceu um rapaz magro, alto, com um quepe nas mãos e vestindo uma farda impecável, de tão nova e bem-passada. Muito solícito, se apresentou, mostrou interesse, conversou um pouco de amenidades, quebrou o clima de tensão e nervosismo, natural nesse tipo de encontro entre desconhecidos, e logo sacou: posso dar uma voltinha no quarteirão? Quando o produto a ser negociado é um automóvel, é normal que o vendedor, mesmo se arriscando, acompanhe na “tal voltinha”, mas subir na garupa de um estranho fica complicado. Resumo da ópera: doido para resolver aquela situação e vender a CB 400, autorizou, ainda mais se baseando na estampa e cordialidade do rapaz do Opala enferrujado, todo almofadinha e trazendo consigo a aparente chancela de uma instituição tão séria e de tanto respeito como é a Policia Militar de Minas Gerais. Mas alertou: uma volta só no quarteirão hein? E lá se foi o elegante “oficial” levando a moto para um passeio. Cinco, dez, quinze minutos se passaram e nada de o cara aparecer. Nosso conhecido ia até a esquina, tentava ver do outro lado da rua e nem sinal. Na frente dele o Opala branco, com os vidros abertos, como se soubesse que ninguém teria interesse em roubar aquele monte de ferrugem sobre rodas. Quarenta minutos depois, quando já se preparava para ligar para a polícia e dar queixa do roubo, aparece, impecável em cima da moto, intacta, o interessado, como se nada tivesse acontecido. Com raiva, nervoso, mas no fundo aliviado, assim que a moto parou foi logo tirando a chave e perguntando o motivo da demora. Não é preciso dizer que a resposta evasiva do oportunista motoqueiro de ocasião não convenceu. Ok, mas pelo menos a CB 400 estava lá, inteira, sã e salva. O moço agradeceu, disse que a moto era ótima, mas para ele o valor era muito alto, como se não soubesse desde o começo da conversa. Entrou no Opalão, desceu a rua com ele desligado, pegou no tranco, soltou CO com vontade na atmosfera e desapareceu. Mas como o mundo é pequeno e Belo Horizonte ainda menor, foi reconhecido uma semana depois, quando, foi visto em frente ao colégio Estadual Central conversando com uma aluna ao lado de outra CB, tão nova quanto a do nosso caso. Na verdade, o que ele queria era paquerar colegiais na saída da escola, de “moto bacana”, como se dele fosse, mas à custa de desavisados e pouco desconfiados vendedores.

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