A vida aos 70 anos. E daí?

iG Minas Gerais |

Eu já havia decidido que nesta semana não iria abordar nenhum tema político – exceto, é claro, se uma catástrofe total nessa área viesse a acontecer. Decidi falar de meus achaques pessoais. Aí acontece a morte do ator José Wilker, aos 67 anos de idade, em plena efervescência de um enorme talento para as artes cênicas. O choque só confirmou que, afinal, sentimos que nosso tempo na Terra vai-se fechando quando vão desaparecendo aqueles e aquelas que de alguma forma participaram de nossas vidas. E confesso que os 50 anos da ditadura militar só fizeram piorar meu sentimento já desanimador. Afinal, eu tinha então 20 anos de idade e sofri tudo. Quando vi alguns noticiários em que personagens da época lamentavam a rapidez com que agiram os golpistas (empresários, militares e gente comum, enfim), fiquei pensando o contrário, como nós não percebemos que eles demoraram a agir... Afinal, tive em mãos documento do antigo Dops, que desde 1962 seguia todos os meus passos na Petrobras, antes mesmo de se completar a fundação da Associação dos Trabalhadores em Petróleo em Minas Gerais, no ano seguinte. Nós é que éramos inocentes demais! Meu assunto, porém, é o da sensação de envelhecer. Dei-me conta dela, pela primeira vez, lendo sobre a morte de Sócrates, o filósofo. Rememoro de cor (pois os poucos livros que tenho agora ficam guardados noutra cidade) e não sei ao certo se foi em Xenofonte, na “Memorabilia”, ou no próprio Platão, “Apologia de Sócrates”, que li, dentre os muitos argumentos utilizados pelo sábio para não fugir da condenação à morte, a referência a que ele já passara dos 70 anos e que já não tinha a mesma disposição física de antes, quando ensinava pelas ruas de Atenas para os públicos que se dispusessem a ouvi-lo e a com ele debater. Dizia Sócrates que essa situação poderia piorar e ele preferia evitar a decadência do corpo. Isso deveras me impressionou. O tempo passou. A partir de 2012, presenciei a sucessão de celebridades que completaram 70 anos: Gil, Caetano, Milton Nascimento, dizem que também Paulinho da Viola e por aí. No ano passado, precisamente no dia 19 de outubro, li boquiaberta um texto de Cacá Diegues, “Manifesto septuagenário”, do qual transcrevo apenas o lide da matéria: “Não sou mais obrigado pela lei a votar, não preciso escolher em quem votar, e meu voto não fará falta a ninguém. Isso talvez sossegue minha angústia, minha frustração”. Neste ano, uma série de lamentos sobre essa idade: Veríssimo – ou foi Ventura? Um empresário que chega a acrescentar uma oração atribuída a umas freiras, rogando a Deus que as auxilie a não adquirir certos cacoetes dos velhos... E até Chico Buarque vai fazer 70 anos! Tão consciente que escreveu um blues para sua namorada. Apenas junto-me a todos para afirmar alto e bom som que, apesar de todos os adjutórios da moderna medicina, apesar do meu ótimo personal e das minhas constantes caminhadas, apesar desse verdadeiro caminhão de remédios e da romaria aos médicos, não estou gostando nem um pouco da idade que fiz. E daí?

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