Conheça a belo-horizontina que se tornou vereadora na França

Silvia Capanema fala das diferenças entre a política na França e no Brasil, conta um pouco de sua trajetória pessoal e até comenta a vinda do francês Anelka para jogar no Atlético-MG, seu time do coração

iG Minas Gerais | Lucas Ragazzi |

Arquivo pessoal
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Depois de oito anos morando na França, a mineira Silvia Capanema decidiu se naturalizar francesa e participar ainda mais da vida política do país, ingressando em movimentos sociais de esquerda e, depois, no Partido Comunista.

No início deste ano, Silvia foi designada pelo partido para estar na lista de candidatos a vereadores da cidade de Saint-Denis. Uma das coisas mais curiosas da campanha da belo-horizontina é que, durante toda a empreitada, ela esteve grávida – hoje, de sete meses e no aguardo de uma menina.

Apesar de sentir saudades da terra natal, Silvia afirma que ainda não pretende voltar. ''Dois fatores me fizeram desistir [de voltar]: a gravidez e a candidatura. Acredito que ainda tenho muitas coisas para fazer por aqui '', diz.

Casada desde 2005 com um urbanista e também militante franco-brasileiro, Silvia é professora na Universidade Paris 13 e, além de ensinar português, leciona sobre história do Brasil e da América Latina.

Confira a entrevista com a mineira que é a mais nova vereadora da França:

1) Qual a diferença das responsabilidades e da atuação de um vereador da França e do Brasil?

No Brasil, o vereador atua mais independente. Aqui, ele faz parte de um grupo e atua conforme o grupo, maioria ou oposição em geral. Ele tem algumas funções específicas, mas o fundamental é estar presente nos conselhos e votar leis, decisões, etc. Ele é um "conselheiro municipal", na verdade, acho que, portanto, com menos responsabilidades e peso político que no Brasil. Mas varia de caso para caso, pode ter alguma função designada pelo prefeito, pode também tomar iniciativas de propostas, deve trabalhar como mediador entre as necessidades da população e a prefeitura.

A eleição também é diferente. Aqui votamos em listas de partidos e coalizões. A pessoa cabeça de lista é eleita(o) como prefeito. O prefeito designa o executivo dentre a sua maioria, eleita automaticamente. Em Saint-Denis, são 55 acentos. A lista que obtém a maioria tem 42 acentos (ou 43 acentos, se for mais de 52%) e o resto são da oposição. Pode haver um segundo turno com uma eleição triangular, ou seja, três listas. A segunda e terceira lista dividem os acentos da oposição.

2) Por que você decidiu se engajar na política no país?

Porque eu gosto e acho importante. Sempre fui de esquerda e interessada pelas questões políticas, mas o fato de ter adquirido a cidadania francesa em 2010 me fez pretender ir mais longe na participação política. Comecei como militante da Frente de Esquerda (Front de Gauche) e do Partido Comunista Francês (PCF) depois que mudei de Paris para a periferia, buscando mais espaço e também comprar um apartamento por um preço melhor. Aqui, descobri uma cidade viva, popular, cheia de imigrantes e descendentes, cuja prefeitura faz um grande esforço para ter transporte de qualidade, realizar a transformação urbana, construir moradias sociais, serviços públicos de qualidade, atividades culturais de excelência, etc. Uma mistura entre progresso urbano e inclusão social.

3) Teria a mesma vontade de participar da vida política no Brasil?

Talvez não. Pois vejo a política como atuação militante, e não como uma trajetória pessoal. No  Brasil, a militância desapareceu bastante nos últimos anos. Por outro lado, há muita necessidade no Brasil de se retomar uma nova dignidade política, construir novos projetos, etc, depois do desgaste com a corrupção pelo qual passa toda a classe política. Talvez fosse interessante, mas teria de mudar um pouco, depois de uma reforma política, pois a política não pode ser uma forma de enriquecimento pessoal, nem uma carreira, nem cabide de emprego, nem um "título de nobreza". Então, teria de ser fora desses esquemas tradicionais. Mas acho que não seria o caso, eu tenho a minha profissão, sou professora-pesquisadora, e pretendo continuar nela.

4) No Brasil, os partidos muitas vezes utilizam nomes que não representam as ações tomadas por eles. Na França é diferente?

Sim e não. O PCF aqui é um partido que participa das eleições e quer governar, junto com a Frente de Esquerda criada recentemente, da qual é membro. Claro que evoca os valores comunistas, os autores, as origens, a sua própria "história gloriosa" na França: como o papel no governo de 1936, ano do Front Popular, onde foram tomadas leis trabalhistas importantes, como as férias remuneradas (na época, 2 semanas); a participação ativa na resistência na época da invasão de parte da França pelos nazistas na segunda guerra; a construção do sistema social francês no pós-guerra, junto com os sociais democratas; todo o trabalho de militância com os sindicatos pelos direitos sociais; a atuação dos parlamentares; a gestão das cidades comunistas que são bem inovadoras, etc. Mas é um partido que procura se renovar também, aprender com os erros das experiências comunistas pelo mundo, propor um novo sentido para o comunismo depois da queda do muro de Berlim, da desindustralização da França, das ondas neo-liberais. 5) As eleições locais foram um duro golpe na base governista de Hollande? Qual a sua opinião sobre o presidente?

Péssima. Fizemos campanha para ele no segundo turno para eliminar Nicolas Sarkozy. Foi eleito pela esquerda com desejo de mudança e nada aplicou de política de esquerda. Nada de progressista além do casamento homossexual. Aplica a política de austeridade europeia a qualquer custo, cortando gastos em setores públicos importantes, diminuindo o poder financeiro dos trabalhadores, precarizando o sistema social, etc. Aplica uma política econômica liberal e nada criativa. E pior, o país não tem melhorado com isso. O desemprego continua alto, o custo de vida caro, a especulação imobilária nas alturas.

Enfim, a França nunca foi um país tão rico como atualmente, mas o dinheiro também nunca esteve tão concentrado. Nas ruas de Paris, os turistas atuais se chocam com o número de mendigos e pobres, enquanto isso, a indústria de bens de luxo (as lojas de griffes) nunca fizeram tanto lucro. Os jovens estão sem perspectiva. Um escândalo para um presidente que se diz socialista não fazer nada para inverter isso, com respostas de esquerda, e não as velhas tentativas da direita, que já não deram certo no mandato Sarkozy.

As eleições municipais mostraram isso: aumento da presença da direita, favorecida pela abstenção; e presença da extrema direita racista e anti-imigração, favorecida pela descrença e despolitização das pessoas. Os partidos mais à esquerda, como o Front de Gauche, PCF, obtiveram algumas vitórias, resistências (como em Saint-Denis, onde o segundo turno foi apertado, 50,5% de votos para a nossa lista, 49,5% para a lista do PS, que se posicionou bem mais a direita por aqui) e algumas derrotas.

6) O Atlético acaba de contratar o francês Anelka, que acabou se envolvendo em uma polêmica do humorista M'bala. Após marcar um gol, ele fez o gesto conhecido como Quenelle, que muitos afirmam ser um símbolo anti-semita. Qual a repercussão disso na França? A Quenelle realmente é anti-semita?

Não é um símbolo antissemita na essência, mas foi usado por antissemitas. O humorista que criou a ideia, Dieudonné, não falava de antissemitismo, mas é associado a piadas antissemitas e nunca as nega. Acho que Anelka não quis mostrar antissemitismo, mas expressar outra coisa, "um sentimento de vingança", provavelmente contra a imprensa ou contra o "sistema", como ele diz. Ele é amigo próximo do humorista. Ele vem também de uma periferia bem popular e é um grande jogador, apesar de polêmico. Tomara que dê certo no meu querido Clube Atlético Mineiro, que está mais uma vez inovando no futebol brasileiro e buscando a internacionalização da imagem do clube, além dos resultados. Achei uma grande ideia.

7) Se ainda morasse no Brasil, com qual partido se identificaria mais e teria desejo de participar?

Não sei. Nenhum. Como eleitora, tendo a votar no PSOL, PCB ou PCdoB, às vezes no PT, no segundo turno principalmente. Mas agora só voto para presidente, pois na embaixada só podemos votar para presidente. Faço questão de votar e de não abandonar a política, apesar das desilusões.

8) Você já presenciou ou foi vítima de algum tipo de preconceito por ser brasileira?

Sim, mas nada muito expresso. Os brasileiros são vistos como simpáticos por aqui, não há conflitos com brasileiros. Mas os estereótipos às vezes são ruins, como país do futebol, do samba, das mulheres seminuas, povo que só gosta de festa e não leva nada a sério, e recentemente a violência. Então, já sofri preconceito por esses estereótipos, mas sempre soube me afirmar e mostrar outras coisas, como a criatividade, o espírito aberto e menos apegado às hierarquias a tradições, capaz de se adaptar facilmente às novas situações, um espírito mais diplomático e conciliador.

9) Como é a aceitação, por parte dos franceses, em ter uma vereadora de outra nacionalidade?

Aqui em Saint-Denis não há problema nenhum. Como disse, há muitos imigrantes e descendentes, é até algo positivo. Não sei no resto da França, pode ser que nos lugares mais conservadores seja um problema... Mas aqui não senti ninguém questionar a minha legitimidade, pelo contrário. Eu também me afirmo bastante e não deixaria. O máximo que podem achar é exótico. Mas eu também me esforço para conhecer a história do país, falar bem a língua, escrever, etc, mesmo tendo sotaque e deficiências por não ter nascido aqui e não ter feito toda a escolaridade aqui. Tento conhecer bastantes coisas e valorizo o que sei, o que sei de diferente, o olhar diferente que posso ter sobre as coisas, e sei que também tenho a minha forma de ser "francesa", que faz parte dessa experiência coletiva de vir de vários lugares e construir junto uma vida comum. E não tenho muito essa coisa de "identidade nacional", sou mais mesmo uma pessoa internacionalista. 

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