Para rir da profissão

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Segunda-feira foi o Dia do Jornalista. Entre exaltações (“profissão da paixão”, o que é verdade) e choramingos (“será que temos motivos para comemorar?”, o que também é verdade) dos posts no Facebook, resolvi sair pelo humor e lembrar o dia, compartilhando o trailer da melhor comédia já realizada sobre a profissão. Trata-se de “A Primeira Página”, um filme em que Billy Wilder desenha uma imagem nada educadora sobre o jornalismo. Com os grandes Jack Lemmon e Walter Matthau, o filme não tão conhecido do diretor está completando exatos 40 anos neste 2014. Mais um motivo para celebrá-lo. Conheci “A Primeira Página” no início dos anos 80 graças ao Josué, que me contou a trama, com requintes de detalhes, empolgadíssimo, e, como sempre que fazia dessas coisas, me deixou com água na boca. Naquela época, antes do videocassete, o jeito era esperar que ele passasse na TV. E, sabe como é, filme velho (oito, nove anos de existência) só passava nas altas madrugadas. Foi numa dessa que o vi para nunca mais esquecer. Como o amávamos, eu e Josué perseguíamos “A Primeira Página” na grade de programação da TV e ficávamos acordados, ele na casa dele, e eu na minha, para rever e no dia seguinte comentar. Os cinéfilos vão dizer que se trata se um “filme menor” de Billy Wilder, dada a filmografia primorosa do diretor, que nos deu “Pacto de Sangue”, “Crepúsculo dos Deuses” e “Quanto Mais Quente Melhor”, só para citar suas obras máximas. Mas e daí? “A Primeira Página” é uma comédia deliciosa, com seus diálogos rápidos e ferinos, seu roteiro repleto de situações absurdas e hilárias, sua direção ágil e certeira, e tudo isso emoldurado pela química fantásticas entre Lemmon e Matthau. Quem precisa de mais? O filme conta história de Hildy, o melhor repórter do jornal “Chicago Examiner”, que decide abandonar o emprego estressante para se casar com Peggy Grant (Susan Sarandon). Seu editor, Walter Burns (Walter Matthau), vai tentar de tudo para demovê-lo da ideia, uma vez que no dia seguinte está marcado o enforcamento de Earl Williams (Austin Pendleton), um homem inocente, o que renderia uma grande manchete. Em uma cena, Walter Burns diz a Peggy: “Case-se com um coveiro, com um distribuidor de cartas ou um batedor de carteiras, mas nunca com um jornalista”. “A Primeira Página” não e a única versão da peça de Hecht e McArthuras para o cinema. Fez primeiro Lewis Milestone em 1931 (que eu nunca vi), mas a adaptação que pode rivalizar com a de Wilder é a de Howard Hawks, que ganhou o nome de “Jejum de Amor” (1940) – como bem me lembrou o amigo Carlos Quintão, no Facebook : “Amo A PRIMEIRA PÁGINA, mas é melhor não desprezar JEJUM DE AMOR (1940), outra versão da mesma história pelas mãos de Howard Hawks”. Ah, esses cinéfilos sempre a afrontarem a nossa memória... Digo então que “Jejum de Amor” é a melhor comédia romântica – e feminista ainda – sobre a profissão, já que Hawks faz praticamente outro filme ao transformar o protagonista Hildy Johnson em uma jornalista. E, se no filme de Wilder, o editor não quer perder seu melhor repórter quando ele anuncia que vai se casar, em “Jejum de Amor”, há algo mais em jogo: Walter não é apenas o chefe de Hildy, mas também seu ex-marido e ainda apaixonado por ela. Sendo assim, “Jejum de Amor” é uma divertida guerra dos sexos, diferentemente de “A Primeira Página”, uma comédia clássica. Mas ambos convergem para mostrar o que jornalistas não fazem por um furo. Trapaceiam, mentem, traem. E tanto Hawks quanto Wilder não douram a pílula, mas falam disso com muito humor. Hawks ainda tira onda, ao avisar logo no início do filme, por meio de um letreiro: “O que você vai ver não tem semelhanças com jornalistas de hoje”.

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