Arte entrelaçada à vida

Bate-papo com o músico e escritor Jorge Mautner abre hoje em BH a segunda edição do projeto Retratos de Artista

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Diálogos. Durante evento, Jorge Mautner vai comentar sua trajetória recordando fatos que costuram vida e obra. Participa de sua mesa a escritora Vera Casa Nova.
Lais Merini de Oliveira
Diálogos. Durante evento, Jorge Mautner vai comentar sua trajetória recordando fatos que costuram vida e obra. Participa de sua mesa a escritora Vera Casa Nova.

Jorge Mautner, 73, ao se referir a si mesmo cita o título de um livro autobiográfico que publicou em 2006: “Eu sou o filho do Holocausto”, diz. A afirmação resume ao seu ver o motivo de sua profunda conexão com as artes. Para ele, que inaugura hoje a segunda edição do projeto Retratos de Artista, promovido no café do espaço CentoeQuatro, é essa angustiante memória que o conduz à música, à literatura, entre outras linguagens.

“Tudo que faço tem uma ligação direta com esse fato. É uma forma, talvez, que encontro de lidar com a minha própria história por meio da arte. Desde quando escrevi ‘Deus da Chuva e da Morte’ (1962), isso faz parte de mim”, revela ele, cujos pais imigraram da Áustria para o Brasil, no início da década de 1940, por causa da ação nazista.

“É um processo que deságua em música, literatura, discussões filosóficas e até um pouco nas artes plásticas, em que me aventurei num breve momento”, acrescenta o artista.

Convidado para participar do evento, organizado por Renarde Freire Nobre, professor do departamento de sociologia da UFMG, ele começa a série de quatro encontros ao lado da escritora Vera Casa Nova, que vai atuar como mediadora. Os outros bate-papos, realizados sempre às quartas-feiras do mês, vão trazer Paulo César Pinheiro (16/4), Hermeto Pascoal (23/4), e Roberto Tibiriçá (30/4), dividindo a mesa com Sérgio Santos, Kiko Ferreira e Heloisa Fischer, respectivamente.

O mote, como ilustra o depoimento de Mautner, é o foco na experiência artística de cada um desses nomes. A longa trajetória do músico servirá, assim, como fio condutor da conversa. Um tema inevitável, por exemplo, será a sua própria vivência durante a ditadura. O artista observa que isso não toma como referência apenas o presente, 50 anos após o golpe militar no país, mas, sobretudo, o papel mobilizador da música naquela época.

“Essa percepção nos veio, por exemplo, quando estávamos na Europa. Em um encontro entre eu, Caetano Veloso, Gilberto Gil, nossas esposas e Violeta Arraes, durante o fim de 1971, ela nos abriu os olhos. Nós estávamos em Barcelona quando Violeta defendeu que nós devíamos voltar ao Brasil naquele momento. Ela dizia que o povo brasileiro tinha caído em profunda melancolia e depressão, não acreditando mais na possibilidade de haver redemocratização no país”, recorda Mautner.

“Seria por meio da música que o povo poderia acreditar na possibilidade de mudança e vários fatos revelaram como isso era verdade. Os shows tinham papel muito importante de renovar o espírito das pessoas, para que elas seguissem em frente. Por isso eles aconteciam com frequência no ambiente estudantil”, lembra.

Projetos. Dono de uma memória atenta a datas e detalhes específicos, Mautner pretende desfiar comentários que alinham arte e vida, colocando seus sentimentos e percepções no centro do debate. Bastante ativo, ele diz que no momento se dedica a colocar no papel vários desses episódios. Resultará disso uma espécie de coleção, cujo primeiro volume ele pretende lançar ainda neste ano.

“Não tenho um nome para esse projeto ainda, mas cada um dos livros não deverá ser muito grande. Penso em retratar algumas das minhas andanças com Nelson Jacobina (1953-2012), Gilberto Gil, de várias coisas que venho vivenciando ao longo destes anos. Não será, certamente, algo linear. Vai ser escrito em zigue-zague e vou poder me dar o desfrute de a cada momento dar um passo para o futuro ou para o passado”, conta o convidado.

Ele também quer lançar um álbum novo em 2014. Já tem em vista alguns parceiros, como Caetano Veloso e a banda Exército de Bebês, além de um repertório de canções recentes, entre algumas inéditas. “Eu quero que o Caetano cante comigo a música ‘A Consciência do Limite’. que fiz com o José Miguel Wisnik. É uma canção que toca especialmente na questão dos direitos humanos, com frases assim: ‘A liberdade é bonita, mas não é infinita. Acredite, a liberdade é a consciência do limite”, pontua.

Agenda

O quê. Bate-papo com o artista Jorge Mautner

Quando. Hoje, às 19h30

Onde. Café do Espaço CentoeQuatro (praça da Estação, 104)

Quanto. Entrada franca

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