Antigas inquietudes do poeta

Ferreira Gullar participa de bate-papo em Belo Horizonte hoje à noite, em homenagem ao clássico “Poema Sujo”

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Conversa. Ferreira Gullar vai falar sobre suas experiências poéticas, a criação de “Poema Sujo”, além de seus pensamentos atuais
Daniel de Cerqueira/O Tempo
Conversa. Ferreira Gullar vai falar sobre suas experiências poéticas, a criação de “Poema Sujo”, além de seus pensamentos atuais

O poeta não escreve um verso há quatro anos, admite não ter memória para armazenar boa parte do que lê por aí e, assim como antes, nunca planeja fazer poesia. É que a lucidez invejável dos 83 anos de Ferreira Gullar ainda hoje o conserva como um garoto inquieto, ao invés de elege-lo simplesmente como um poeta consagrado. “Só escrevo pela necessidade inquieta de escrever, não planejo a palavra que virá. Nunca”, garante. Toda a sensibilidade do último grande poeta do Brasil, como acertou a definição de Vinicius de Moraes, poderá ser vista hoje, quando Ferreira Gullar retorna a Belo Horizonte para participar do projeto Terças Poéticas, que fará uma homenagem ao memorável “Poema Sujo” (1976).

Escrito entre maio e agosto de 1975, durante o período de exílio do poeta em Buenos Aires, na Argentina, “Poema Sujo” não envelheceu apenas porque é um clássico ou pelo fato de o livro ser um desabafo de sentimentos sufocados pela ditadura militar – que fez 50 anos de golpe no último dia 1º de abril. Mas, sobretudo, porque a “experiência única” de escrever a obra na década de 70, como o próprio Gullar define seu trabalho, acabou retratando inquietudes que não morreram hoje, mesmo após o fim da ditadura.

“As pessoas me param na rua para falar dos versos, outro dia uma cantora recitou um trecho em seu show. Escrevi o livro como quem foge de uma perseguição (ditadura). Talvez as pessoas que se identifiquem também fujam de outras coisas”, elucida o poeta.

Uma fuga atemporal que fica clara em versos delicadamente vomitados no papel, como Ferreira Gullar se refere ao seu processo de criação. O que fica explícito na passagem em que o poeta faz uma autoanálise enquanto exilado político: “mudou de cara e cabelos / mudou de olhos e risos / mudou de casa e de tempo: mas está comigo / está perdido comigo”.

O que acontece é que todos os versos que integram “Poema Sujo”, como os descritos acima, são considerados uma redenção para Ferreira Gullar. É que se não fosse o poetinha e amigo Vinicius de Moraes para gravar o livro em uma fita K7, na casa diretor de teatro Augusto Boal, em Buenos Aires, talvez o menino inquieto que fugia da ditadura não tivesse conseguido retornar ao Brasil. “Depois disso, o livro foi publicado, entrou na lista dos dez mais vendidos e criou-se uma situação favorável para a minha volta. Lembro que prestei seis dias de depoimentos no DOI-COD e os militares me disseram que sabiam tudo de mim, só queriam me interrogar para eu entender que o Brasil não era a casa da mãe Joana. Isso me deu mais gás para escrever”, lembra.

Com cerca de 50 obras publicadas, entre poesia, teatro e televisão, quem for ver Ferreira Gullar hoje à noite precisa entender que ele deixou de escrever nos últimos anos não pelo cansaço de oito décadas de vida – seu último livro publicado de poesias é “Em Alguma Parte Alguma” (2010).

O fato é que o tempo deixou os cabelos do poeta brancos, mas os manteve longos como os de um adolescente rebelde: a diferença é que sua inquietação não grita mais por qualquer desespero. Marcado pelo desassossego que o levou a destilar poesia contra a injustiça social e a opressão, além de reflexões da problemática do homem, Ferreira Gullar espera novos sentimentos para, quem sabe, voltar a surpreender com suas poesias. “Eu lutei demais, fiz parte da esquerda desse país com muito orgulho. Mas sabemos que o socialismo não deu conta do próprio sonho. Então, é necessária uma renovação, o apontamento de outros caminhos. E é assim também com a poesia. Escreverei quando sentir novamente algo dentro de mim pedindo isso”, atesta.

Bate-papo

Projeto. Ferreira Gullar participa do projeto Terças Poéticas, hoje, a partir das 19h, na Casa Una de Cultura (rua Aimorés, 1.451, Lourdes). A entrada para o bate-papo com o poeta é gratuita, mas haverá distribuição de número limitado de senhas para os participantes.

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