Arte vinda da construção civil

Bruno Cançado explica que sua pesquisa criativa reflete sobre deslocamentos entre ambientes externos e internos

iG Minas Gerais | Daniel Toledo |

Signo, Bruno Cançado explicou sua criação em torno do zero: “Queria que esse número, ligado à ausência, atuasse contra a gravidade”
fotos bruno cançado/divulgação
Signo, Bruno Cançado explicou sua criação em torno do zero: “Queria que esse número, ligado à ausência, atuasse contra a gravidade”

Na escolha dos materiais dentro de sua produção artística, Bruno Cançado associa à experiência da cidade a recorrente opção pelo uso do concreto como matéria de trabalho. “De fato, tenho muito interesse nas nossas relações com a cidade, em como vivemos e transformamos esse espaço. Me interessam muito, por exemplo, os gestos da construção e da destruição em meio à cidade”, afirma o artista, que não raro se apropria, em seu trabalho, de elementos ligados à construção civil.

É esse o caso, por exemplo, da série “Corpo de Prova”, no qual Cançado propõe um jogo entre o próprio corpo e pequenos cilindros de concreto comumente usados, na construção civil, para testar a resistência de misturas entre cimento, água, areia e brita. “Conheci esses cilindros durante visita a uma obra, logo que comecei a trabalhar com concreto, e acabei me interessando por essa ação de testar a resistência do material”, sintetiza o artista mineiro, selecionado agora pela feira internacional de arte de São Paulo SP-Arte, para uma residência em Portugal.

Ele também estabelece claras relações com o universo da construção civil em obra sem título no qual o artista leva à galeria de arte uma intervenção retangular que explora a textura do chapisco. “Mais uma vez, o trabalho revela ao espectador algo do processo de construção, já que o chapisco é uma etapa necessária para a construção de uma parede ou um muro”.

Por outro lado, acrescenta ele, o mesmo trabalho pode se desdobrar em reflexões sobre as relações que estabelecemos com ambientes externos e internos. “Há, ali, o deslocamento de um elemento externo para um ambiente interno, assim como um deslocamento da relação com a textura, no qual a aspereza inicial acaba suscitando outras percepções, que podem passar pela contemplação e algum tipo de afeto, por exemplo”.

A obra aproxima-se, nesse sentido, dos efeitos alcançados por “Jantar” e “Estar”. “Quando você afasta esses elementos do seu lugar mais comum, a rua, e os traz para o ambiente doméstico, para o ambiente da casa, o que se cria é uma relação mais íntima com ele”, sintetiza, sobre trabalhos que em breve ocuparão as dependências da AM Galeria.

SP-Arte

Público. A SP-Arte, feira internacional de arte de Sâo Paulo, que terminou domingo e onde Bruno Cançado foi selecionado, recebeu na edição de 2014 cerca de 24 mil visitantes em cinco dias.

Presenças. A 10ª do evento reuniu do pavilhão da Bienal do Parque Ibirapuera 136 galerias, sendo 78 brasileiras e 58 provenientes de 17 países.

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