Entre o conceito e o concreto

Recém-premiado pela organização da última SP-Arte, artista mineiro Bruno Cançado reflete sobre a própria produção

iG Minas Gerais | Daniel Toledo |

“Zero”. Trabalho experimenta diferentes materialidades para o mesmo número zero
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“Zero”. Trabalho experimenta diferentes materialidades para o mesmo número zero

Encerrada no último fim de semana, a SP-Arte teve um gosto especial para o jovem artista mineiro Bruno Cançado. Em sua primeira participação na mais tradicional feira de arte do país, ele foi um dos dois artistas escolhidos pela organização do evento para participar de uma residência de dois meses na Fundação Bienal de Cerveira, em Portugal, no segundo semestre deste ano. Criador de trabalhos que chamam atenção por gestos simples e materiais ordinários, como concreto, papel, madeira e carvão, Cançado encara o prêmio como uma oportunidade de se dedicar ao ofício que, aos poucos, vem ganhando espaço em sua vida.

“Como ainda divido meu tempo entre o design e a arte, essas residências acabam sendo importantes para que eu consiga trabalhar com o que eu quero. Ali, é possível ser artista 24 horas e alcançar, de fato, uma imersão no meu próprio trabalho”, pondera Cançado, formado em 2010 pela Escola Guignard.

Para concorrer ao prêmio, o artista levou a São Paulo a instalação “Zero”, na qual combina as duas linguagens que predominam em sua criação, o desenho e a escultura.

“Por coincidência, comecei a fazer esse trabalho durante outra residência artística, nos Estados Unidos, em 2011. A certa altura da pesquisa, resolvi trabalhar com o signo do número zero, explorando a sua presença física no espaço. Queria que esse número, ligado à ausência, atuasse contra a gravidade, assumindo o próprio peso e uma qualidade mais palpável”, explica o artista.

A partir dessa ideia, ele criou duas ações baseadas na mesma imagem. Na primeira, em que desenha o número zero na parede usando peças de carvão, Cançado chama atenção à matéria necessária para a construção do número, oferecendo lugar privilegiado aos resíduos de carvão que, ao longo do ato de desenhar, se acumulam sobre a imagem.

“Gosto muito de expor esses vestígios do processo de criação, deixá-los aparentes aos olhos do público. Isso faz com que o tempo se faça presente no trabalho e afasta da criação artística qualquer aura de mistério”, analisa.

Na segunda ação, por outro lado, ele converteu a mesma imagem em uma grande escultura de concreto. “Esse trabalho reflete meu interesse pela matéria crua e totalmente exposta, chamando atenção tanto aos seus aspectos físicos quanto ao que ela possa trazer de questões culturais e simbólicas”, completa Cançado, que deve ganhar sua primeira exposição individual no mês que vem, na AM Galeria de Arte.

Além de “Zero”, o artista vai apresentar ao público da capital outras criações inéditas por aqui, como é o caso de “Estar” e “Jantar”, desenvolvidas ao longo de uma residência artística nos Estados Unidos, em 2013. “Nesses dois trabalhos, procuro dar alguma leveza e maleabilidade ao concreto, esse material essencialmente duro e pesado. Essa maleabilidade, ou aparente maleabilidade, acaba modificando a relação despertada entre o espectador e o material”, aposta.

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