Território amparado

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Dia desses consegui não prorrogar mais a curiosidade e pude visitar a exposição “Minas Território da Arte”, em cartaz na galeria Alberto da Veiga Guignard, no Palácio das Artes. São criações de 64 artistas mineiros realizadas a partir do século XX. É uma primeira seleção de um grande mapeamento que está sendo feito das artes visuais do nosso Estado, um trabalho, até onde se sabe, pioneiro no país. No extenso salão da principal galeria do Palácio das Artes, que respira o vento do tráfego na avenida Afonso Pena, está disponível ao olhar do visitante uma diversidade de estilos, técnicas, linguagens e temas. Na pintura, por exemplo, há desde paisagens frugais e muito curiosas como um panorama geral da cidade de Mariana pintada a média distância em 1931 por Alberto Delpino, até pinceladas vigorosas de Fernando Pacheco e Ana Horta. Logo no início quem dá as boas-vindas é Arlindo Daibert, com alguns de seus objetos em que mescla literatura e artes visuais; e uma tela de pregos sob lona. Por ter concentrado sua atuação na cidade de Juiz de Fora, onde nasceu, ele, que morreu precocemente em 1993, aos 41 anos, não ficou tão conhecido em Belo Horizonte, mas deixou uma obra de intrigante delicadeza. No centro há um corredor de esculturas aberto com as linhas de Jorge dos Anjos e seguida pelas formas de Paulo Laender, Jarbas Juarez e Amilcar de Castro. Dentre elas, não conhecia e me ative mais à deformidade da obra “Matadouro”, de Jarbas Juarez. Artista-professor que eu acompanhava mais pelos desenhos e pinturas, ele se dedicou às esculturas com sucatas no fim dos anos 1960. Nessa que está na exposição, figura em sucata e ferro, um bovino capturado, de cabeça para baixo, no abate, metáfora para as prisões políticas e tortura que havia no Brasil naquele período. A arte popular de nomes como GTO, a pesquisa em cerâmica de Erli Fantini, os trabalhos em madeira de Manfredo Souza Netto e Celso Renato, a pesquisa estética com o pó do nosso minério realizada por Eymard Brandão; enfim, há muito de bom a se apreciar nessa exposição e tantas histórias por trás do que está ali que eu não teria espaço para abordar aqui. A fruição é prazerosa tanto ao observador que visita a galeria apenas de passagem quanto ao interessado em pesquisar e conhecer mais a fundo a arte produzida em Minas e os artistas. O projeto, coordenado pelo curador e pesquisador Fernando Pedro, com apoio do governo do Estado, abrange todas as regiões de Minas e na pesquisa de campo ele contou com o trabalho dos estudiosos da área Jacqueline Prado, José Alberto Pinho Neves, Marco Antonio Pasqualini, Rodrigo Vivas e Walter Sebastião, e ainda com o suporte de universidades federais no interior. A exposição, que pode ser vista até o mês que vem, é uma amostra do amplo projeto que, como explicou Fernando Pedro à imprensa, vai resultar em uma obra de cerca de mil páginas, divididas em cinco exemplares, catalogando a arte produzida em Minas Gerais a partir do século XX até parte da produção atual. Esse não é um trabalho recente, e sobre o qual posso dar meu testemunho por acompanhar há décadas os consistentes projetos da Editora C/Arte, desenvolvidos por Fernando Pedro e Marília Andrés Ribeiro, desde os pequenos e preciosos volumes do Circuito Atelier, que documentam vida e obra de dezenas de artistas. Já no ano passado Marília lançou o livro “Introdução às Artes Visuais em Minas Gerais”, abrindo caminho para o que virá com a concretização da obra editorial “Minas Território da Arte”. Um alento saber que esse segmento da nossa cultura não está à deriva, conta com gente séria e interessada em construir e documentar uma memória viva dessa produção artística rica e multifacetada.

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