Treino intenso desde a infância

Especialistas se dividem sobre os riscos para o desenvolvimento

iG Minas Gerais | Litza Mattos |

Carreira. Fernando Sardinha acompanha a filha, Lara, que participa de competições desde os 11 anos
Reprodução / Facebook
Carreira. Fernando Sardinha acompanha a filha, Lara, que participa de competições desde os 11 anos

Dieta rigorosa e treinos intensos nas academias não são uma prática exclusiva dos adultos que buscam se destacar pela forma física. Os exercícios de musculação têm se tornado cada vez mais comuns mundo afora ainda na infância, o que tem levado as crianças às competições de fisiculturismo infantil.

Alguns casos ganharam repercussão internacional, como o do romeno Giuliano Stroe, que já exibia um físico musculoso aos 5 anos, assim como o irlandês Brandon Blake, 8. O Brasil também engrossa essa lista. Com uma coleção de mais de 80 títulos, o atleta fisiculturista Fernando Sardinha, 44, conta que a sua filha Lara Biagioni, 12, frequenta a academia desde bebê, e os treinos vieram, naturalmente, a partir dos 2 anos.

“Coloquei a vida da minha filha em cima dos meus conhecimentos, não para provar nada, mas porque sei o que é melhor pra ela. Se ela falar que não quer mais (o treinamento), não vou forçar, mas só falo para que ela continue, pelos benefícios”, diz o professor de musculação orgulhoso da filha, que hoje já acumula quatro troféus, seis medalhas, é vice-campeã brasileira e campeã paulista de fisiculturismo.

Para Sardinha, o preconceito contra quem investe nos músculos ainda na infância é alimentado pela falta de informação. “A musculação é um esporte cuja sobrecarga ajuda na produção dos hormônios responsáveis pelo tripé que rege a vida do ser humano: insulina, hormônio do crescimento (GH) e testosterona. A criança que treina tem maior controle neuromuscular até para sentar na privada, só come alimentos saudáveis, bebe água na quantidade necessária, dorme melhor e ainda fica com maior autoestima do que as que dependem de outros para treinar. Em um jogo de futebol, a criança se frustra quando os outros não jogam como ela espera. Na musculação, ela vai pelo prazer pessoal”, argumenta o atleta.

Recomendações. O especialista em musculação terapêutica José Maria Santarém não condena a prática, mas orienta que os treinos sejam em dias alternados, com poucos exercícios e de baixo volume e intensidade. “Não conheço nenhum autor que recomende, mas não é possível criticar (a musculação na infância). Estudos mostram que não há problema algum relacionado a lesões ou prejuízo ao crescimento das crianças que pudesse contraindicar o treino. As crianças fazem muito mais esforço brincando no parque do que na musculação”, afirma o fisiatra.

Para o diretor técnico da Federação Mineira de Fisiculturismo Eduardo Haddad, o objetivo inicial dos exercícios deve ser oferecer experiências motoras para aperfeiçoar a execução da atividade. “Após a adaptação motora, começamos o programa para aumento de resistência muscular. Programa de força só aos 12 anos ou mais”, ressalta.

E ainda há quem ateste que o trabalho de força excessiva possa, sim, atrapalhar o crescimento da criança – o que acontece muitas vezes com praticantes da ginástica olímpica –, alerta Janine Aparecida Viniski, da Comissão de Educação Escolar do Conselho Federal de Educação Física.

“Se a criança estiver apresentando lesões, o conselho pode tomar uma atitude mais severa e algum tipo de punição”. Porém, ela não soube detalhar quais seriam as medidas tomadas pelo conselho para prevenir esses casos.

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