Prêmio dos bons

iG Minas Gerais |

O abade Constant, ao ser perguntado: “O que é um tolo?”, respondeu calmamente. “É alguma coisa mais absurda que uma besta. É o homem que quer chegar sem ter andado. É o que se julga senhor de tudo porque chegou a ter alguma coisa. É um matemático que despreza a poesia. É um poeta que protesta contra os matemáticos. É um pintor que julga a filosofia uma inépcia porque nada entende de filosofia. Ainda é o que ignora e nega a ciência sem ter o trabalho de estudá-la. É o homem que fala sem conhecer e sem saber”. Aquele que se satisfaz e se compraz da sua ignorância, que confia na esperteza da transgressão e age como fera, imaginando que, podendo enganar os homens, poderá enganar Deus. Para que o aluno compreendesse mais, o abade explicou que o tolo é “o urso que esmaga a cabeça do amigo com uma pedra para caçar uma mosca e ainda justifica seu gesto trágico. O tolo julga que nada tem a aprender. Ele quer reger os outros. Muitos o enxergam como tolo, porém ele jamais o saberá”. Fala mais do que ouve, escuta a si mesmo para não tomar ciência de que nada sabe. É quem sonha em ter sucesso e poder sem ter estudado e suado. O jovem retrucou: “Mas como é possível encontrar tolos em lugares importantes, colhendo sucesso, honras e glórias?”. Sem abalo, o abade respondeu: “Simples. É por causa do número quase infinito de tolos que existem neste mundo que a política é, e sempre será, a ciência da dissimulação e da mentira. O tolo não sabe usar o poder e fatalmente se engasgará com este. Não é por outra razão que Maquiavel, um sutil e desarmado pensador, ousou dizê-lo e foi ferido por uma reprovação legítima”. “O florentino fingiu dar lições e conselhos aos príncipes para traí-los, expô-los e denunciá-los à desconfiança das multidões. Porém, as multidões são tolas e acreditaram ser Maquiavel um cínico e frio conselheiro a serviço dos poderosos. Digo mais, meu jovem. Se desejares tornar-te poderoso em obras, nunca digas a alguém teu pensamento, nem à mulher que tu amas. Lembra-te de Sansão e Dalila”. Pois é, “quando uma mulher julga conhecer a fundo o marido, deixa de amá-lo, passa a querer governá-lo, a dirigi-lo. Se ele resistir, ela o odeia; se ceder, ela o despreza. Repara. A vida ensina que a mulher se apaixona com frequência pelo confessor, pois ele sabe tudo dela, e ela, nada dele. O segredo atrai mais a mulher tola do que mil explicações”. O mistério permite ao tolo sonhar, acreditar que o milagre é possível sem merecimento, e na sua congênita ignorância. Quando o sino marcou a hora do silêncio, o aluno ainda questionou: “O que é afinal que move o tolo?”. “Meu caro jovem, a vaidade pueril e o mesquinho interesse levam os homens pelo nariz até a morte. São poucos os que se apercebem disso. Empurram a pedra de Sísifo. O fundo da maior parte das almas é a vaidade. A vaidade é o vazio, é o vácuo, nunca sacia”. “Acrescentem-se zeros quantas vezes puder, para o tolo sempre valerão zero; amontoa nadas e a nada chegarás. Nada, eis aí o programa da maioria dos homens!”. Começam com nada, juntam zeros e ainda acabam sentindo falta de tudo”. “Enfim, o que fazer?”, pergunta o jovem. “Se tu queres ser puro e sagrado, tu serás consagrado ao suplício. A humanidade pecadora não te aceitará, tu serás o espelho onde poderão ver sua feiura, e assim te quebrarão. Essa humanidade tem necessidade dos tormentos das almas inocentes e puras. Seu triunfo é incerto, mas sempre é póstumo. O Cristo morreu na cruz, e todos aqueles que Ele iniciou foram martirizados”. O suplício é o imposto que paga quem tomou a liberdade de ser Deus. “A ti, meu jovem, cabe a árdua escolha”.

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