Três décadas de muito peso

iG Minas Gerais | LUCAS BUZATTI |

João Gordo - Vocalista do Ratos de Porão
Deco
João Gordo - Vocalista do Ratos de Porão

Aos 50 anos, João Gordo persiste à frente do Ratos de Porão, banda ícone da música pesada brasileira, que se apresenta hoje em BH. Na conversa abaixo, entre uma e outra risada, ele fala da comemoração dos 30 anos do disco “Crucificados Pelo Sistema”, dos casos que marcaram o início da banda, comenta o próximo álbum da trupe e revela que sua biografia está sendo escrita.

Trinta anos de “Crucificados Pelo Sistema”. Qual o legado do disco para a música pesada? É um disco histórico, o primeiro de punk rock da América do Sul. Nós tiramos leite de pedra na época. Foi um calhambeque que fez muito barulho. Influenciou bandas no mundo todo, e é o cordão umbilical que vai ligar o Ratos ao punk para sempre. Fizemos um show no México há pouco tempo e lotou de punk “xixi” por causa desse disco. Vários com a capa tatuada, tá ligado?

Como está sendo reunir a formação do disco para essa série de shows?

Cara, depois de 1983, só tocamos com essa formação duas vezes. Então, tá sendo bom pra caralho relembrar essa época. Ainda somos todos amigos, se reunir é lembrar de coisas muito engraçadas. Só desgraceira, mano.

Porque optaram por fazer apenas três shows (São Paulo, Rio de Janeiro e BH)?

Ah, cara. É calhambeque! Não quero saber de calhambeque (risos). Porra, é o Jão [guitarrista da banda] tocando bateria, tá ligado? (risos). Não que seja ruim, é bom pra caralho, principalmente pra quem viveu o começo do Ratos. Mas hoje a banda tá focada nas coisas novas.

O que os fãs podem esperar desse show em BH? Pureza (risos)! Como eu disse, é calhambeque. Não vai esperando o trator que é a formação do Ratos hoje. É outra parada, é punk antigo, cru, seco. E tá muito parecido, cara. O som é a mesma coisa, parece que foi outro dia. Quem gosta vai ficar emocionado.

Sobre a época do “Crucificados”, imagino que tenham muitos casos históricos. É o que mais tem. A gente lembra dessa época e chora de rir, cara. A banda ensaiava na casa do Mingau, que tocava guitarra. Era um barracão de chão de terra e, quando chovia, enchia de água, virava uma lama. E a gente ligava todos os instrumentos num mesmo amplificador. Então, ninguém podia encostar em nada, senão dava choque (risos). E eu não tinha microfone, berrava pra caralho pra ouvir a voz. Era muito tosco.

E os shows dessa época?

A gente tocou muito pouco, mas fizemos quatro shows em 1983 que me marcaram muito. O primeiro foi a minha entrada no Ratos, em junho, na PUC de São Paulo, com o Inocentes e o Dose Brutal. Tem imagens desse show no documentário “Punks”. Outro foi no Napalm [antiga casa de shows de São Paulo]. Eles queriam ter um show de punk rock todo domingo, e o primeiro foi o do Ratos. Só que um punk pegou os extintores de incêndio do lugar e deu um banho de pó químico na galera, fez a maior zona. Aí nunca mais teve porra nenhuma (risos)! O outro foi em Rio Claro [SP], com o Olho Seco e o Cólera. As bandas foram todas de ônibus de linha, barbarizando. Fomos cheirando cola, rasgando os bancos, pixando o ônibus, zoando a porra toda. Quando chegamos, a polícia já tava esperando a gente, foi todo mundo preso (risos). Os policiais jogaram água nos instrumentos pra gente não tocar, uma merda...

E aí, como saíram? Não aconteceu o show?

Pior que aconteceu. A sorte foi que o dono da empresa de ônibus era pai de um moleque que tava organizando o show. Aí liberaram a gente pra tocar. O último desses quatro shows foi em Salvador. Fomos pirando também, num ônibus de linha, fumando maconha no banheiro a viagem toda. Chegamos lá e a única banda de rock que existia na cidade era o Camisa de Vênus. Os roqueiros eram bem confusos, a cena era estranha, tá ligado? E tinha a “gangue da corrente”, os caras iam pros shows pra dar correntadas nos outros. Só que, nesse show, os seguranças tinham uns facões, mano. E rolou uma briga bizarra, de facão contra corrente (risos). Iam ter dois shows, mas por causa disso só teve um e só rolou grana pra metade da galera ir embora. A outra metade teve que ficar lá, e nós ficamos. Viramos mendigos em Salvador (risos). Duas semanas sem lugar pra dormir, pedindo grana, sobra de rango em pizzaria.

Pouco tempo depois, a banda já caminhava para o hardcore e o metal. Como foi essa transição?

Foi nessa época que eu fui chamado de traidor do movimento. A gente escutava hardcore, aí falei para um fanzine [“Lixo Cultural”, 1983] que o Ratos não era mais punk, era hardcore. E começou essa parada de falarem que a gente traiu o punk.

Mas o que aconteceu depois disso?

Não chegou a rolar nada sério, eram mais brigas, ameaças, que continuaram depois que começamos a tocar metal. Mas é isso, cara. É o preço de ser pioneiro! (risos)

Anos depois, o Ratos estourou, principalmente no exterior. Hoje, o Brasil dá mais valor à banda? O nosso público daqui é muito fiel. Sempre foi. Quem não dá moral é a mídia e esses grandes empresários. A banda fez 30 anos de estrada e ninguém falou porra nenhuma. Só vão falar quando eu morrer, tá ligado? “O João Gordo era engraçado, era tosco, blablabla”. Mas eu tô cagando, cara. Tem esses festivais grandes também, né. Sempre com as mesmas “bandas cu”. Os mesmos babacas e as mesmas bandas ruins pra caralho, uma parada meio impenetrável. Os gringos só chamam a gente para festival foda. Já tocamos com o The Cure, tá ligado? Com o Therapy?, com o Manowar. Quando ia acontecer isso aqui no Brasil? Nunca. Mas na República Tcheca rolou.

Me fale do próximo disco, “Século Sinistro”. O “Século Sinistro” foi uma produção minha. Fiz 50 anos e decidi produzir. Virei adulto, né. Engraçado que foi só agora, com 50 anos! (risos). Então, o disco é um corre meu. E modéstia a parte é um dos melhores discos do Ratos. Tá muito foda. São 12 músicas inéditas e um cover, da banda sueca Ant Cimex. Vamos lançar aqui pelo meu selo, Bruak Records, e na gringa pela Alternative Tentacles, do Sílvio, do Korzus.

Quando sai? Reza a lenda que é em maio. (risos)

E o som, está muito pesado?

Tá muito metal. É o disco mais pesado da banda, na minha opinião. É o Ratos na sua essência mais agressiva. Essa formação é uma máquina assassina, cara. Estamos tocando muito, então a banda tá muito em forma. Nem ensaiamos mais.

Além do disco, vem mais novidade por aí?

Tem dois DVDs que estão pra sair. O dos 30 anos da banda, que já tá pronto e deve pintar este ano ainda. E o dos 30 anos do “Crucificados”, que tá sendo feito. Esse resgata mais essa época do começo do Ratos, esses casos toscos.

E o João Gordo, o que anda aprontando?

Então, vai rolar a minha biografia também. O [jornalista] André Barcinski tá escrevendo. Só história escabrosa. O cara tá se divertindo.

Digamos que hoje o João Gordo está mais “relax”, relembrando casos do passado.

Porra, 50 anos, né, mano! Você quer que eu fique me descabelando com 50 anos? Essa idade é decisiva, cara. Ou fica ou passa. Faço caminhada todo dia, dieta, não uso drogas pesadas há muito tempo. Quero viver muito ainda.

 

 

Agenda

O QUÊ. Show especial Ratos de Porão / 30 anos de “Crucificados Pelo Sistema”

QUANDO. Hoje, às 18h30

ONDE. Studio Bar (rua dos Guajajaras, 842, Centro)

QUANTO. Ingressos esgotados

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