Quem tem medo de Silvero?

Aclamado no Festival de Teatro de Curitiba, ator, diretor e dramaturgo colhe frutos de uma longa trajetória de pesquisas sobre travestis

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Estreia. Em “Uma Flor de Dama”, o artista cearense levou ao palco pela primeira vez a estética que se tornou uma marca 
de outros trabalhos
Photographer: Ivson
Estreia. Em “Uma Flor de Dama”, o artista cearense levou ao palco pela primeira vez a estética que se tornou uma marca de outros trabalhos

O ator Silvero Pereira voltou para Fortaleza, após sua participação no Festival de Teatro de Curitiba, no fim de semana passado, deixando um rastro de boas memórias. Levou ao evento o monólogo “BR Trans”, que arrancou da plateia longos aplausos.

A repercussão positiva ele sentiu novamente quando, depois das apresentações, resolveu dar uma volta pelo centro da capital paranaense. “Eu estava caminhando pela região e uma curitibana me parou para dizer que tinha ficado muito feliz de ter visto a peça. Eu fiquei um pouco surpreso com todas as coisas que ouvi, e essas demonstrações de carinho me fizeram entender o alcance do trabalho, me deixando muito contente”, relata o cearense Silvero Pereira.

Para o artista, a resposta do público foi importante não apenas porque lhe indicou um retorno do esforço em mostrar algo de qualidade. Ele entende isso como o reconhecimento de mais uma década de pesquisas dedicadas ao universo das travestis.

“BR Trans”, por exemplo, é apenas o quarto trabalho de uma série que se iniciou com “Uma Flor de Dama” (2005) e depois seguiu com “O Cabaré da Dama” (2008) e “Engenharia Erótica – Fábrica de Travestis” (2010). Além do teatro, recentemente, ele ainda viveu seu primeiro papel na televisão, interpretando um personagem nessa mesma linha na minissérie global “Serra Pelada – A Saga do Ouro”.

Aos poucos, ele percebe ser cada vez maior também o interesse da classe artística pelo que produz. “Quando começamos com os trabalhos centrados nessa temática, havia uma grande desconfiança. Alguns chegaram a considerar que eu estava mudando a minha perspectiva do que era arte para assumir uma visão mais marginal, deixando de ser ator para ser transformista ou travesti”, revela Pereira. “Agora, após passar por outros festivais durante estes 12 anos, e com essa ótima recepção em Curitiba, eu acho que as pessoas entendem melhor a proposta e a enxergam como uma estética legítima para o teatro”, acrescenta.

Continuidade. Embora esteja envolvido em outros projetos, que não necessariamente lidam com a questão da travestilidade, como o espetáculo “Metrópole”, encenado também na mostra Fringe, em Curitiba, o artista se diz interessado em dar continuidade às criações nessa primeira linguagem.

Até 2015, ele prevê a estreia de “Quem Tem Medo de Travestis?”. A montagem, de acordo com Pereira, mergulhará ainda mais fundo na análise da vida das personagens que interpreta, focando os pilares da exclusão social em torno delas.

“São três pontos que considero mais importantes de serem frisados: a sociedade, a religião e a família. Queremos tocar nisso para que as pessoas comecem a entender que a condição da travesti é fruto de uma sociedade excludente, ou seja, a marginalização sofrida é fruto da conjugação desses três pilares que precisam assumir a sua postura preconceituosa”, explica. Ele também defende a ideia de produzir uma montagem infantil.

“Queremos acabar com esse mito de que travesti é apenas sinônimo de prostituição. Achamos que com isso poderemos trazer um contribuição útil inclusive no ambiente das escolas. Vem se discutindo muito como hoje não há espaço nesses contextos para se exercer determinados tipos de sexualidade. Dessa forma, algumas dessas pessoas desistem de estudar e se tornam alvos fáceis dos processos de marginalização”, observa Pereira.

Em diálogo constante com ONGs que defendem os direitos dos LGBTs, o ator afirma conciliar sua atuação no teatro e na militância desde que começou a desenvolver “Uma Flor de Dama”, peça inspirada em texto de Caio Fernando Abreu.

A própria trajetória desenhada pelas montagens reflete o seu crescente enfrentamento do assunto, que, ao seu ver, é reflexo de uma preocupação coletiva. “Se em ‘Uma Flor de Ama’ eu quis reforçar esse caráter humano, para sugerir um olhar para essas pessoas a partir da história de vida delas, em ‘Engenharia Erótica’ é abordado os diferentes nichos do universo trans e suas profissões, construindo uma espécie de mosaico. Já ‘BR Trans’ traz uma discussão mais ampla sobre o Brasil e violência”, detalha Pereira.

Processo. Em 2013, ele viajou até Porto Alegre onde, durante dois meses, frequentou o presídio local, que é um dos poucos do país com alas específicas para as travestis. Desse convívio tecido a partir de uma oficina de teatro, o ator colheu material para construir “BR Trans”. Grande parte do impacto do espetáculo ele atribui a mais essa experiência.

“Eu ganhei uma bolsa de pesquisa concedida pela Funarte e a peça nasceu justamente disso. Eu fui para lá porque Porto Alegre é a capital cujo presídio tem a segunda maior ala de travestis. O primeiro fica em Belo Horizonte, aliás. Eu conversei muito com elas durante aquele período e desse contato eu tirei muitas ideias para a dramaturgia de ‘BR Trans’”, recorda.

Se em 2002, a trajetória de Pereira parecia apontar uma escolha individual, a cada dia o ator nota como o trabalho iniciado ali expressa algo além disso. Para ele, tratar das dores e dos anseios de uma população segregada não poderia representar um desejo apenas seu. Em razão disso, lhe parece inevitável a formação do coletivo artístico As Travestidas.

“Hoje temos fotógrafos, videomakers, publicitários que mostram a dimensão dessa necessidade coletiva. Somos mais do que um grupo de teatro e temos até uma banda, Verónica Decide Morrer. Acho que o papel de sensibilizar as pessoas por meio da arte nos exige atuar em muitos caminhos”, conclui.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave