É culpa da natureza, estúpido! – O sentido da vida

iG Minas Gerais |

Agora que definitivamente a vida não tem mais sentido, quem não for herói será vilão
Intervenção sobre foto de caubói antigo (1888)
Agora que definitivamente a vida não tem mais sentido, quem não for herói será vilão

Polêmico, Albert Camus (1913-1960), abre seu livro “O Mito de Sísifo” com a frase “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio”. Numa época em que não havia televisão, Balzac (1799-1850) escreveu nas “Ilusões Perdidas”, referindo-se à primeira década do século XIX: “Naqueles tempos os gabinetes de leitura [bibliotecas públicas] ainda não existiam, era preciso comprar um livro para lê-lo. Por isso os romances se vendiam em números que parecem fabulosos hoje em dia”. “Hamlet”, talvez a melhor peça de Shakespeare (1564-1616), é uma longa e patética discussão sobre assassinato e adultério. Quem hoje em dia se preocupa com suicídio, literatura, adultério e assassinato? Ou mesmo com filosofia? FILAS E MAIS FILAS Às seis horas da tarde, no centro das cidades grandes, dezenas de milhares de pessoas, sujas, cansadas, espremidas e sugadas, se empurram à espera do ônibus ou do trem que as levará para casa, no fim do mundo, muito além do fim do mundo. Vamos olhar de perto. Quase todos são jovens, quase todos estão de celular em punho, quase todos – é visível – ganham mal e possuem educação baixa. Estão sujos porque o dia foi gasto em suor. Estão cansados porque o trabalho foi duro, pelo menos chato, pelo menos não era aquilo que desejavam da vida. Talvez famintos? Pode ser fim de mês, o salário deve ser baixo demais, quem sabe existam pai, mãe e irmãos menores a sustentar. A fila anda devagar. A vida anda devagar. É o colossal rebanho dos medrosos e dos tímidos pobres, dos que não têm coragem de viver rápida e perigosamente. TIROS E MAIS TIROS Na vila Esperança, aglomerado de casebres e caixotes empilhados nos confins das cidades grandes, as noites são perturbadas pelo tec-tec das balas trocadas pela mocidade esperta, que se recusa a ralar num emprego vagabundo em troca de salário mínimo. De manhã, nos cantos dos muros, corpos encolhidos representam a safra sangrenta. Sobreviventes passam, olham de banda, meio que sorrindo (antes ele do que eu), e seguem em frente, a vida continua, a guerra continua, o sangue continuará jorrando. Ninguém ali é otário. O berreiro da televisão, acusando traficantes sem nome de mais uma carnificina, não atinge ninguém. Ou atinge, aumentando a vontade de viver bem, ainda que perigosamente. Mais valem cinco anos de boa vida do que 50 de rotina e miséria. FALTA DE SENTIDO O mesmo Camus, famoso no século passado e desprezado hoje, também escreveu, em “A Morte Feliz”: “Não gosto de falar a sério porque, nesse caso, só há uma coisa de que se pode falar: a justificativa que se dá à própria vida”. Mas que justificativa, cara? Quem é que atualmente, nessa briga desesperada para subir, trepar, escalar, galgar, pontificar, vencer e vender, terá tempo para ficar de barriga para cima, contando urubus no céu e pensando no sentido da vida aqui embaixo? A vida não tem sentido, diria o mesmo Camus. O sentido da vida é o absurdo, a falta de sentido. Vivemos e morremos como estrangeiros no mundo. PRESOS E MAIS PRESOS Não dá para contar, as estatísticas mudam todo dia, mas as leis estão aí para nos servir. Em todas as cidades grandes, médias e pequenas, as celas estão atulhadas, não cabe mais ninguém, os “os bandidos” estão mais desaforados hoje do que ontem. Nunca se furtou, assaltou, estuprou e matou tanto. Nem nas guerras. Bem que a polícia faz o possível para não prender ninguém, mas existe trouxa demais, bandeira demais, flagrante demais. Fazer o quê? Lá se vai o cara mofar atrás das grades, dias, semanas, meses, anos. Deixar preso para quê? Só se for para enriquecer empresas terceirizadas. Protestos proliferam nas redes sociais. Denúncias se amiúdam nos noticiários da tevê. Mas os filmes que os americanos (do norte) nos empurram goela abaixo em DVDs vendidos nas esquinas fazem o elogio do tiroteio. São sempre heróis os que matam, os que atiram para valer, no meio da cara. O sangue é um mar vermelho de puro heroísmo. FILME ANTIGO Revi há pouco um faroeste daqueles bem românticos, em que heróis são heróis e vilões são vilões. O herói é bonzinho, o vilão é mauzão. Para se vingar do herói, consegue o vilão raptar a namoradinha do herói e trancar-se com ela num casebre das montanhas. Chega o herói, sério, compenetrado, andando com aquele gingado típico dos heróis. Dá um chute na porta. Desaba a porta. Lá dentro, a mocinha serve de escudo para o vilão. Coça a cabeça o herói, deixa cair o 38. Ri o vilão, apertando a cintura da mocinha. De conversa em conversa, o herói se aproxima, vai chegando, chega. E tudo termina bem, como nas novelas, em que o drama termina como o público esperava. MORTO ESPERANDO O público espera mas não acontece o que o público esperava. De repente, daquela esquina ali, saí um “bandido”, tremendo que nem vara verde, e dá um tiro na cara do público que esperava outra coisa. Cai o público de costas, foge o assustado “bandido” às carreiras, some noutra esquina da vida. Menos um. Ou mais um, tanto faz. O público está estarrecido. Não consegue entender porque ele, logo ele, o público, que sempre agiu corretamente, levou um tiro na cara. FILME MODERNO Camus caiu do galho, Balzac caiu do galho, até o velho Bardo caiu do galho. Quem dá as cartas é a televisão. Com um olho atira na cara, com o outro acaricia. Com bocona discreta, o apresentador sorri para o público. Se é triste a notícia, a boneca faz cara de triste na hora de ler. Se é alegre, ó, quanta alegria!, o rapagão de gravata faz cara feliz na hora de ler. Ninguém explica nada. Tudo se mistura na babel de notícias em cima de notícias em cima de notícias em cima de. Se ninguém explica, ninguém sabe nada. Também ninguém quer saber. Como naquele filme mais antigo ainda, agora é matar ou morrer.

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