Tempos de violência e de loucura sem fim

Vinte anos depois, “Pulp Fiction” se perpetua na cultura pop por meio dos fãs

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Divulgação
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Sete Lagoas, 1995. Renné França tem 13 anos e um primo mais velho que não cansa de ouvir a trilha de “Pulp Fiction” e dizer que foi o melhor filme que já viu. França é o primeiro a reservar o VHS na locadora e tem a inusitada ideia de vê-lo com a família.

“Não posso dizer que gostei de cara. Tinha um cérebro explodindo em um carro e Bruce Willis com uma espada matando um cara que sodomizava Marsellus Wallace. Senti aquela vergonha ao lado dos meus pais, por ter sido eu a alugar aquilo”, confessa.

Levaria alguns anos – e uma carreira acadêmica – para que o hoje crítico e pós-doutorando em comunicação pela UFMG compreendesse o impacto da obra de Quentin Tarantino, que completa 20 anos em 2014 após estrear em Cannes em 1994. Mais que um marco do cinema independente ao lado de “Sexo, Mentiras e Videotape” e “O Balconista”, “Pulp Fiction” é um dos maiores definidores da cultura pop nos anos 1990, junto com o Nirvana, os cortes de cabelo de Rachel em “Friends”, o pênalti de Baggio e o bullet time de “Matrix”.

“Para mim, Tarantino é o representante máximo do chamado cinema pós-moderno, de referências, porque entende que, em termos de linguagem, tudo já foi feito. E é curioso que um filme que se aproveita de referências tenha se tornado ele próprio uma”, analisa. Mais que um clássico, porém, “Pulp Fiction” se eternizou ao fazer parte – e construir a história – da vida de seus fãs.

Vincent Vega e a esposa de Marsellus Wallace. São Paulo, 15 de maio de 2006, o dia em que o PCC parou a cidade. Em um restaurante fechado, no meio da metrópole fantasma, Selton Mello e Seu Jorge discutem teorias mirabolantes sobre o universo de Tarantino – ou, nas palavras do curta, “Tarantino’s Mind”.

“Tivemos que assinar um monte de contratos de seguro porque ninguém queria colocar equipamento na rua naquele dia. Mas o Seu Jorge começava uma turnê com uma cantora cubana no dia seguinte e filmamos tudo entre meia-noite e 6h”, lembra Manitou Felipe, metade do duo 300ML, completado por Bernardo Dutra, e responsável pelo curta-metragem.

“Tarantino’s Mind” nasceu, na verdade, em 1998 quando Manitou, com 24 anos, comprou filmes de diretores de que gostava de uma locadora que estava fechando em Ipanema, no Rio. Ao ver a filmografia do cineasta em uma madrugada, ele percebeu uma série de conexões entre personagens e histórias e começou um roteiro a respeito.

“Em 2004, quando saiu ‘Kill Bill’, Bernardo me ajudou a reescrever e decidimos filmar”, explica. O curta foi lançado no Festival do Rio de 2006, antes da première de “Dália Negra”. Mas foi no YouTube que o filme viralizou com milhões de acessos.

“Tem gente que faz aula de improviso, teatro, com o curta, transcreve o roteiro e vai pro bar. Já tem tese de faculdade sobre o filme, pessoas que continuam a teoria até o ‘Bastardos Inglórios’, inclusive fora do Brasil”, conta. Para Manitou, o impacto se deve à atemporalidade de “Pulp Fiction”. “Pode assistir em qualquer época e ele vai ter a mesma força. Mostrei pro meu filho de 15 anos outro dia e ele ficou apaixonado”, argumenta.

O relógio de ouro. Belo Horizonte, 1998. Eduardo Caetano, 16, assiste a “Pulp Fiction” pela primeira vez e o filme “explode sua cabeça”. Não literalmente. “Na época, não tinha racionalizado direito. Foi só em 2006, na faculdade de arquitetura, que percebi como o filme me mostrou que a linguagem do cinema podia ser remixada e retrabalhada sem deixar de contar uma história interessante, mas dando um novo sentido para ela”, elabora.

Tarado por RPG, Caetano passou a correr atrás de algo que importasse essa estrutura para o universo dos jogos. “Achei algumas coisas que abordavam o lance da violência, mas nunca a linguagem cinematográfica”, explica. Em 2010, o arquiteto se convenceu de que, se não existia, ele mesmo criaria esse jogo.

O resultado foi “Violentina”, primeiro RPG brasileiro bancado por financiamento coletivo online. Com selo do coletivo belo-horizontino Secular Games, o jogo se diferencia dos RPGs tradicionais ao não ter um mestre. Os personagens se alternam construindo histórias, de forma não-cronológica, em torno dos temas violência, volúpia, vício e vingança. “A partir das personalidades dos personagens, os conflitos surgem”, acrescenta, explicando como o jogo se aproxima ainda mais do universo tarantinesco.

Emulando o ambiente de clandestinidade, “Violentina” usa cartas de baralho que, com base em seu valor numérico, graduam o poder que os jogadores têm ao narrar a história – inclusive subornando ou roubando a vez do outro. Ao fim, quem somar mais pontos com as cartas que tiver na mão, ganha o direito de contar o desfecho da narrativa.

O espírito “do it yourself”, segundo Caetano, veio da história do próprio Tarantino, autodidata que aprendeu cinema vendo filmes. “Ele representa uma cultura anárquica dentro do sistema. E antecipa o que estava por vir, pegando um monte de coisas ruins e fazendo algo bom com elas, que é o que a gente vê no YouTube hoje a torto e a direito”, opina.

A situação Bonnie. Autodidata, aliás, é como se define Renato Veras Jr. O ano é 1994, São Paulo. Ele assiste a “Pulp Fiction” no cinema. Extasiado, ele compra o ingresso e fica para a próxima sessão. Eram as duas primeiras das mais de 200 vezes que ele veria o filme – a última, na semana passada.

Fã de Tarantino, Veras pensava em abrir uma lanchonete chamada Big Kahuna Burger – assim como aquela citada no longa – desde 1998. Em 2013, sem nenhuma experiência no ramo, ele realizou o sonho. Com o Royale with Cheese, o $5 Dollar Shake, a sobremesa Zed is Dead e o sanduíche Bad Motherfucker, o local é um sucesso.

“Veio um cara com o Ezequiel 17:25 tatuado inteiro nas costas. Uma menina vestida de Mia Wallace. Vem gente de tudo quanto é canto. Eu costumo dizer que eles vêm pelo Tarantino, mas voltam por minha causa”, afirma.

Depois de aparecer em publicações especializadas e ganhar o prêmio de melhor hambúrguer de São Paulo, o Big Kahuna – que tem o roteiro de “Pulp Fiction” na casa e cujo cardápio e decoração fazem referência a outras obras do cineasta – vive cheio. No último Halloween, 30 pessoas fantasiadas passaram a noite inteira no local.

“Cara, todo fim de semana eu tenho uma fila de 200 pessoas na minha porta. São três vezes mais que minha capacidade, que é 65 lugares. Eu nunca esperaria numa fila assim. Fã de Tarantino é tudo doido”, diz Veras, que vê “Pulp Fiction” ao menos uma vez por mês.

 

 

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