Roupa de guerra

Conhecida por ir contra a ditadura militar, a estilista Zuzu Angel volta à tona como marco da moda como protesto

iG Minas Gerais | Lorena K. Martins |

O icônico vestido com bordados bélicos que foi exibido no desfile-protesto, que aconteceu em 1971, em Nova York
Gilvan Barreto/Itaú Cultural/divulgação
O icônico vestido com bordados bélicos que foi exibido no desfile-protesto, que aconteceu em 1971, em Nova York

Não é de hoje que a moda vem dando o seu recado, indo muito além das tendências para a próxima estação. Dos acontecimentos políticos, as análises migraram sem esforço para as passarelas como uma forma de se manifestar, afinal, atire a primeira pedra quem nunca “cutucou” a política ou algum fato chocante por meio de seu desfile. Usar a própria roupa como protesto foi uma das marcas registradas da estilista mineira – que gostava de ser chamada de costureira – Zuzu Angel, durante a ditadura militar. Suas icônicas peças, revolucionárias para a época, denunciavam o regime político e principalmente eram um apelo contra o sumiço do seu único filho homem, Stuart Angel, que, mais tarde, se confirmaria que fora assassinado, em 1971. W

No último dia 1º, data em que o golpe militar do Brasil fez 50 anos, a estilista voltou à cena em uma homenagem no São Paulo Fashion Week, em um desfile-performance com réplicas de roupas assinadas por ela, como parte da mostra “Ocupação Zuzu”, exibida no Itaú Cultural, em São Paulo, até o dia 11 de maio. A mostra contém 400 ítens relacionados à mineira, com curadoria compartilhada de Hildegard Angel, filha de Zuzu e Valdy Lopes Jr, que também assina a direção de arte da exposição.

Pra sempre, luto

De acordo com Mariana Rodrigues, professora de moda da UNA e colunista do , a estilista trazia a mensagem política em sua própria imagem: vestia-se sempre de preto, para expressar seu luto e dor pelo filho morto. Durante seu desfile em Nova York, em 1971, um dos marcos de sua carreira, Zuzu espertamente resolveu colocar a boca no trombone com muita classe: desfilou peças repletas de significados contra os desmandos da ditadura. “Se examinar os elementos de um de seus vestidos criado com bordados de pombas negras, pássaros engaiolados, balas de canhão e tanques de guerra, verá que a relação entre esses elementos não é natural, a não ser que eles se tornem porta-voz de uma história específica, que é o assassinato de Stuart”, explica. Pandora

Para encerrar, Zuzu deixou como lembrança uma das imagens mais intrigantes da moda como grito de protesto: encerrou o desfile vestida de um preto nada básico, ornado por um cinto de correntes que carregava 100 crucifixos, representando cada jovem morto pela ditadura e, no pescoço, um pingente de um anjo branco de porcelana.

“Ela sabiamente utilizou-se das armas que tinha na mão para fazer seu grito ser ouvido. Foi uma aparição marcante, sem sombra de dúvida, tanto que ficou na memória da moda brasileira. Agora, se foi sua aparição mais marcante como estilista, não sei responder. Talvez tenha sido a que causou maior rebuliço por unir um conceito forte – no caso um protesto contra a ditadura – à roupa”, acredita.

Legado

Mas não foi só a militância política que marcou a carreira de Zuzu. Muito antes dessa busca incessante pelo seu filho, lá nos anos 60, ela já aplicava a valorização da nossa cultura em criações irreverentes e procurou tornar a alta-costura acessível a todas as mulheres, além de construir uma carreira internacional, principalmente nos EUA, e chegou a dizer, sem pretensões, que “eu sou a moda brasileira”.

“Ela era mais do que uma mulher. Na época em que tudo se copiava, ela foi a primeira a valorizar elementos brasileiros”, acredita Elke Maravilha, que, por causa da moda, acabou se tornando amiga da costureira e uma de suas modelos preferidas.

Longe dos padrões internacionais de elegância, principalmente o francês, Zuzu valorizava suas peças com rendas do Ceará, chita e estampas com temas regionais, nas flores, papagaios e borboletas, além de vestidos inspirados em Carmen Miranda, Maria-Bonita e Lampião. “Na coleção sobre o cangaço, utilizou duas tiras de couro atravessadas sobre o peito. Era seu toque decorativo, que unia o look aos cantis de alça de couro que todo o bando de Lampião carregava”, explica Mariana Rodrigues.

Quem também já homenageou a visionária da moda brasileira foi o estilista mineiro Ronaldo Fraga, que desfilou, em 2001, no São Paulo Fashion Week a coleção de verão “Quem matou Zuzu Angel”, nome dado devido ao suspeito acidente de carro que a matou em 14 de abril de 1976, aos 54 anos.

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