O cheiro do espírito jovem persiste no ar

Vinte anos atrás, o rock perdia seu último grande ícone

iG Minas Gerais | Lucas Buzatti
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De anti-herói a mito: Kurt Cobain ainda influencia gerações
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De anti-herói a mito: Kurt Cobain ainda influencia gerações

“Como Hamlet, eu tenho que decidir entre a vida e a morte”, diz a carta de suicídio de Kurt Cobain, escrita para seu amigo imaginário “Boddah” e deixada em sua casa, em , há 20 anos. De fato, a dicotomia filosófica do personagem shakespeariano resume bem a batalha interna do líder do Nirvana. Entre ser e não ser, Cobain escolheu a segunda opção, tirando sua vida com um tiro de espingarda, aos 27 anos de idade, deixando uma legião de admiradores inconformados.Seattle, Washington

Nascido em Aberdeen, Washington, Kurt Donald Cobain conheceu a música e a depressão ainda muito cedo. “Ele era um artista nato, tinha desenhos lindos. Se não fosse para a música, iria para as artes plásticas. Mas toda a sua criação artística era fortemente ligada à depressão, principalmente após a separação dos pais, que moldou muito essa personalidade destrutiva”, afirma a jornalista Cínthia Demaria, pesquisadora da vida de Cobain e fã do Nirvana.

Os dramas familiares, a incapacidade de lidar com as emoções e o vício em heroína levaram o artista à originalidade do grunge. O movimento, que estourou após o sucesso de “Nevermind” (1991), resgatou a crueza e a rebeldia do punk, somando-as ao niilismo poético das letras e da estética dos “largada” dos músicos. “O Nirvana mudou o rock totalmente no início dos anos 90. Vinha num marasmo total e perdendo muito terreno para a dance music”, lembra o produtor musical Dudu Marote.

À medida que o Nirvana estourava, o assédio piorava a situação emocional de Cobain. “Ele passou de anti-herói a ídolo em muito pouco tempo. A falta de privacidade foi deixando-o cada vez mais deprimido. Em uma ocasião, o fotografaram dando banho em sua filha, Francis, e a imagem mostrava uma escova de dentes e uma seringa lado a lado na pia. Aquilo acabou com ele”, conta Cínthia. “A fixação da imprensa pela esposa Courtney Love também piorou muito a situação mental do Kurt. Ele era perdidamente apaixonado”.

Mas a derrocada do músico viria com as crises de abstinência e as tentativas frustradas de reabilitação. Em 1993, ano do lançamento do último disco do Nirvana, “In Utero”, Cobain tornara-se suicida, justamente na única passagem da banda pelo Brasil. O show no Hollywood Rock, em São Paulo, marca essa época conturbada. “O cara zoou o show inteiro. O restante da banda abandonou o palco e mesmo assim ele ficou tocando sozinho por 40 minutos, quebrando o palco inteiro, zoando sem parar”, lembra Dudu Marote.

Na época, João Gordo foi o anfitrião da banda no Brasil. “O cara era super depressivo. Só fui ver ele rindo depois do show, na festa em que nós fomos. Só rolou cocaína a noite inteira, mas ali eu vi ele dançar Beatles, se divertir”, conta. Sobre o show, Gordo conta os bastidores do fracasso. “Nós fomos falar com ele que o festival era capitalista, de uma marca de cigarro, e o cara levou a sério e zoou tudo. Desafinado, tocando cover, todo mundo irritado. Foi horrível”.

No segundo show, no Rio de Janeiro, Cobain estava mais “controlado”. Mostrou o pênis, cuspiu na plateia, mas tocou todo o repertório com energia. “Esse show, sim, foi bem legal”, lembra Gordo. O produtor Jeff Mason lembra que foi preciso achar um quarto de hotel em primeiro andar, no Rio, para Cobain. “Se havia uma sacada, ele ficava pronto para pular”, conta na biografia “Kurt Cobain - Mais Pesado que o Céu” (2001).

Um ano depois, Cobain tiraria sua vida, reforçando a imagem de mito, que tanto o atormentava. “A morte o tornou ainda mais humano. Jovens de todo o mundo se identificaram com seu jeito errante e excluído. Ele influenciou toda uma geração de bandas e fãs. E influencia até hoje, afirma Cínthia.

Prova disso é a diferença de idade entre os fãs da banda. Para o publicitário Tullio Dias, 28, “o Nirvana chega a ser mais importante que os Beatles para a música atual”. Mais ponderado, o estudante Daniel Junqueira, 17, ressalta a influência do Nirvana para jovens guitarristas como ele. “O grunge mostrou que é possível admirar o simples, a guitarra velha, chiando e trastejando. Kurt deixou o legado de um ‘guitar hero’ único no rock”.

 

 

 

 

 

 

 

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