O verdadeiro assassino

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Na última semana, ouvi dois relatos sobre ataques de cães que terminaram em morte. O primeiro dizia que o cachorro (mestiço de pitbull com boxer) atacou um menino de 13 anos após ter fugido do canil de uma igreja. O menino – que foi mordido no rosto, pescoço e crânio – não resistiu, e o cachorro foi sacrificado. O segundo caso veio de uma amiga. Ela havia adotado uma cachorrinha de rua. Todos os dias dava comida, água, fazia afagos e esperava ansiosa a hora de chegar à porta do seu prédio para encontrá-la. Naquele dia, não a encontrou. Procurou, chamou e, então, resolveu perguntar se alguém a havia visto. Uma vizinha deu a triste notícia de que ela tinha sido atacada por dois pitbulls que conseguiram fugir de uma casa e foram para a rua. A cachorrinha latiu. Eles, que estavam indo em direção a algumas crianças, tiveram sua atenção desviada e a escolheram como alvo. Minha amiga ficou inconsolável e se recusa terminantemente a chamar os assassinos de cães. Para ela, eles são monstros.

Tenho cachorros desde a infância. No começo eram só cachorrinhos de companhia, desses que vivem em apartamento, mas foi só mudar para uma casa que a necessidade de ter um cão de guarda surgiu. Na época, pitbulls e rottweilers ainda não eram moda, o cão mais feroz de que se tinha notícia era o dobermann, que foi exatamente o que o meu pai quis comprar. Minha mãe deu um escândalo. Ela havia assistido àquele filme do ataque dos dobermanns e de forma alguma queria que os filhinhos dela virassem ração de cachorro. Meu pai consultou especialistas, pesquisou em livros e chegou à conclusão de que muito do que o tal filme mostrava era lenda, um completo exagero. Ele estava certo. Nossa primeira dobermann era um doce, não só com os membros da família mas também com qualquer pessoa que visitasse nossa casa com frequência. Depois dela, tivemos mais quatro da mesma raça, cada um mais manso do que o outro. A atual, inclusive, chega a ser engraçada. Tem medo até dos outros cachorros que temos em casa, e eu costumo dizer que ela tem alma de cocker spaniel, já que vive rodeada por eles. Tenho receio de que ela se assuste ao se deparar com um espelho algum dia... provavelmente fugirá, sem ter noção de que o tal reflexo, grande e forte, é dela mesma.

O que os meus cachorros têm de diferente daqueles dos relatos que eu ouvi? A criação. Desde filhotes, eles foram considerados seres vivos. Mais do que isso, cresceram como parte da família. Demos comida suficiente, carinho, casa e espaço. Tratamos cada um deles com atenção e respeito, e eles retribuem.

Cães agressivos geralmente são aqueles cujos donos os maltratam a tal ponto que eles passam a achar que qualquer um constitui uma ameaça. Eles simplesmente agem em legítima defesa. E ainda tem gente que reclama que o cachorro ataca o próprio dono. Gostaria que a linguagem canina pudesse ser entendida, para que o cachorro pudesse contar o que o dono fez para merecer tal ataque. No mínimo, o desprezou. Ora, se me desprezam, eu mordo também! Parece brincadeira, mas experimente deixar uma pessoa dentro de uma jaula. Dê pouca comida, não deixe que ela veja a luz, não converse e só se dirija a ela para xingar. O que essa pessoa vira?

Só deixaremos de ouvir relatos de ataques de cachorros no dia em que criarem punições severas para os donos. Para cada cachorro sacrificado por causa de um ataque, o responsável por ele deveria cumprir pena na cadeia pelos anos de vida que o cão perdeu devido à criação que recebeu. Assim, preso, talvez possa entender o que o cachorro teve que passar e se conscientize de que ele era um ser inocente. Assassino é ele mesmo, o dono, que maltratou um animal a ponto de transformá-lo. Em um monstro.

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