‘Hoje, são violados os direitos humanos e a Constituição’

María Corina Machado - Deputada destituída venezuelana

iG Minas Gerais | Raquel Sodré |

María Corina Machado - Deputada destituída venezuelana
ERALDO PERES
María Corina Machado - Deputada destituída venezuelana

María Corina Machado está no Brasil para pedir que a comunidade latino-americana quebre o silêncio acerca do regime, segundo ela, ditatorial de Nicolás Maduro. Ela foi afastada de seu cargo de deputada no fim de março pelo presidente da Assembleia Nacional venezuelana, Diosdado Cabello, braço direito do presidente.

Como você enxerga os críticos que a acusam de golpista? Na Venezuela, todos aqueles que defendem seus direitos, que se opõem às práticas repressivas do governo são desqualificados e chamados dessa maneira. Os dirigentes sindicais, os dirigentes financeiros, até os bispos da Igreja vão chamá-los assim. Mas todos esses grupos são pagáveis, todos sabemos.

Você afirmou que a Venezuela iniciou um movimento cidadão irreversível. Aonde leva esse movimento? Leva a uma Venezuela onde se discutem os direitos humanos, onde exista plena observância da Constituição, onde há respeito, segurança, liberdade e democracia. O mundo tem que entender que, nestes últimos dois meses, o senhor Maduro cruzou uma linha vermelha. A repressão, a tortura, a perseguição política, o assassinato de estudantes estão documentados, registrados em testemunhos e em fotos, apesar da censura gritante que existe no país. Temos que chamar as coisas pelo seu nome. Na Venezuela, não existe democracia, existe uma ditadura que destroçou a nossa democracia durante anos.

Ontem, você foi criticada por querer derrubar um governo que foi eleito. Como responde a essa crítica?

Todos sabemos como ocorreram as eleições nacionais no ano passado. Foram muito questionáveis, porque o senhor Maduro se comprometeu em fazer uma auditoria completa em todas as urnas e depois não cumpriu. A legitimidade democrática de um governo não vem somente de como se chega ao poder. Pode-se chegar ao poder com eleições transparentes, com a totalidade dos votos, mas, se o exercício não é democrático, ele perde essa legitimidade. Isso é o que o mundo deve entender: além do processo por meio do qual se chega ao poder, a democracia tem a ver, também, com a finalidade do poder e a forma como é exercido. Hoje, na Venezuela, se violam os direitos humanos, a Constituição e a Carta Democrática Interamericana em todos os seus elementos fundamentais. Por isso, nós (venezuelanos) não entendemos como os países democráticos que se insurgiram tão fortemente quando houve a crise do Paraguai e a de Honduras possam, com uma situação muitíssimo mais grave na Venezuela, deixar de ouvir as nossas vozes – isso quando não nos viram as costas. Não conseguimos entender.

Você sugere a realização de novas eleições mais transparentes?

Nós queremos uma transição à democracia. Acreditamos que o país não pode continuar na direção para onde está indo. Mas queremos fazer isso sob o marco da nossa Constituição, e esse documento estabelece diversos mecanismos – desde um referendo convocatório, à emenda constitucional, à formação de assembleias constituintes, à renúncia – todos válidos. Sabemos que, além do governo, há uma forte crise econômica na Venezuela que também motivou os protestos.

Como você sugere que sejam resolvidos os problemas econômicos?

A Venezuela vive a maior crise econômica de sua história contemporânea. Temos a inflação mais alta do mundo, não há recursos, não há comida, não há gás doméstico. Essa situação exige uma mudança profunda na política econômica do país, principalmente voltada para gerar confiança. Hoje, nem os venezuelanos, nem a comunidade internacional têm confiança na economia da Venezuela. Nós entendemos que o senhor Maduro não vai mudar as políticas econômicas, mas vai radicalizá-las. É por isso que estamos nas ruas e não vamos parar até conseguirmos que a Venezuela consiga seguir o caminho da democracia.

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