“O serviço da polícia tem sido enxugar gelo: prende, solta”

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“O caixa está equilibrado. Estamos pagando nossos compromissos regularmente”
Omar Freire / Imprensa MG
“O caixa está equilibrado. Estamos pagando nossos compromissos regularmente”

Em entrevista para O Tempo, em seu penúltimo dia na condição de governador de Minas, Antonio Anastasia diz que está tranquilo em relação ao trabalho que realizou no Estado. Ele lista as suas principais ações, afirma que as contas estão equilibradas e ressalta que é necessário diversificar a atividade econômica que, segundo ele, não pode ficar dependente da mineração e da agricultura. Em 2011, no seu governo, alunos da rede estadual ficaram quase cem dias sem aulas. Agora, os servidores da educação enfrentam a notícia de suspensão dos efeitos da Lei 100. Nas propagandas, Minas aparece como o Estado com um dos melhores índices na educação. A realidade das salas de aula não está distante dos vídeos? Os vídeos decorrem das estatísticas oficiais. O primeiro lugar do Ideb resulta de um dado do governo federal. As avaliações são feitas pelas universidades federais, por ONGs, por órgãos fora de Minas Gerais. A greve não aconteceu em 2012 e 2013. A lei votada em 2007 teve efeitos positivos. Vários Estados têm exatamente a mesma legislação e, agora, estamos estudando sobre o desdobramento (da decisão do Supremo Tribunal Federal de declarar ilegais 97 mil cargos). Como professor, o senhor sai frustrado por ter sido justamente essa categoria que mais demonstrou insatisfação ao seu governo? Quem demonstrou insatisfação foi o sindicato (Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas (Sind-UTE)), não os professores. Quando visito o interior e, mesmo na capital, sou muito bem recebido pelos professores. Há um sentimento de extrema satisfação. Agora, o sindicato tem o seu papel político, vinculado ao partido que nos faz oposição, faz parte da democracia. Os servidores da saúde dizem que 30% dos novos concursados abandonam o cargo nos primeiros anos pela falta de condições de trabalho. Há fuga de profissionais? Não. Na realidade, tivemos, ao longo dos últimos anos, um reajuste muito expressivo na área da saúde, mais de 140% na folha. É natural que todos os servidores almejem ganhar mais. Existe hoje no Brasil, em várias categorias, mais na área jurídica, pessoas que vão fazendo concurso e vão se aprimorando profissionalmente. É um processo de rotatividade, diferentemente do passado, quando as pessoas centravam mais numa única carreira.  Temos um déficit diante dessa rotatividade? Não. Nós temos número de profissionais compatíveis, temos várias concursos na área da saúde, e aumento de unidades hospitalares.  Recentemente, com a morte de um jovem estudante no bairro Gutierrez, vítima de um assalto, a população se revoltou e espalhou pelo bairro várias faixas, em que citavam o senhor diretamente, com pedidos de providências. Como lida com o clamor das famílias? A segurança hoje, não só em Minas, mas em nível nacional, tem indicadores preocupantes. Vivemos em uma sociedade violenta, 90% da criminalidade é ligada ao tráfico de drogas. Eu até acredito que essa questão nacional de segurança vai, agora, nesta campanha de 2014 ter um destaque muito grande, porque a resolução do problema dependerá inclusive de medidas de modificação da legislação. O serviço da polícia tem sido enxugar gelo: prende solta, prende solta. Em todos os apelos que recebo, eu sou muito sensível. Por que o governo do senhor não conseguiu cumprir as metas na área de segurança – nem mesmo nas ações de prevenção –, como demonstrou relatório interno da Polícia Militar em 2013? Se na área de segurança nem todas as metas foram atingidas é porque tivemos os problemas que acabei de citar. Muitas vezes, a área da segurança tem o fator de instabilidade que escapa da ação governamental, que é o comportamento individual. Se a sociedade tende a uma violência maior, essas metas ficam mais difíceis. Vamos diminuir (a violência), agora. Para isso, há necessidade de uma mudança na legislação. Entre 2011 e 2013, segundo o Portal da Transparência, os investimentos do Estado na área reduziram de R$ 7,52 bilhões para R$ 6,53 bilhões. Isso pode ter refletido no aumento da criminalidade? Acho que esses números estão errados, porque não tivemos nenhuma queda de orçamento na área de segurança. Vocês não sabem olhar direitinho, porque aos números têm que somar o (gasto com) pessoal. É impossível que a despesa em segurança tenha caído, porque temos aumento de 100% para os servidores militares. O senhor trocou de secretário de segurança, o deputado Lafayette Andrada, um nome político, por um nome técnico, Rômulo Ferraz. Alguns especialistas dizem que a primeira escolha, a política, contribuiu para o crescimento da criminalidade. A mudança do secretário se deu por necessidade de modificação na Assembleia. Discordo dessa dualidade política e técnica. Se fosse assim, não seria governador, já que tenho origem técnica. Isso é uma quimera que inventaram.

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