Filha, preciso falar com você

iG Minas Gerais |

salomão salviano
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Minha querida, o que quero dizer a você nesta carta fantasiada de coluna de jornal não faz muito sentido para o pouco peso dos seus 6 anos, carregados de uma confiança tão inabalável que me enchem de orgulho e otimismo. E torço para que faça menos sentido ainda quando as questões que vão aparecer nas próximas linhas começarem a rodear seus interesses; que você olhe para tudo isso aqui e acredite que as cores de 2014 estavam mais próximas do obscurantismo da Idade Média que para o cotidiano iluminado dos seus dias. Mas como prefiro não arriscar e, na verdade, tenho poucas esperanças de uma grande revolução, deixo aqui um manual materno para você ter para aonde voltar quando pintar um certo desassossego. Guarde com você, mesmo quando parar de me achar a mulher mais inteligente do pedaço, quando suas vontades forem maiores que nossas semelhanças, quando a gente começar a discordar de quase tudo. Antes de mais nada, de um jeito surpreendente não só pra mim, você já sabe de tudo, apesar de ter nascido outro dia. Em uma das nossas conversas no tapete do seu quarto, você exibiu sua ciência certeira e definitiva: – O homem é igual um pavão, precisa abrir o leque para a mulher gostar dele. – Mas homem tem leque? – Não mãe, quer dizer que ele tem que ser educado, gentil e elegante. – E a mulher? – Só precisa ser corajosa. É isso filha, mulher precisa ser corajosa. Porque um sistema de cromossomos, totalmente aleatório, é usado sem pudor para determinar o que você pode ou não pode fazer. Pior, alimenta diariamente as sentenças do que você pode ou não pode ser. Não se deixe convencer por essa conversa, de jeito maneira. Seu gênero tem alguma participação em quem você é, mas não só ele. Você é muito mais complexa que seu gameta. E não deixem que coloquem nos seus ombros a culpa por ser a vítima. Porque, por mais duro que seja dizer isso, o mundo não vai ser gentil com você. Haverá todo tipo de julgamento, desde quanto à roupa que você escolher usar até sobre quem e quantos você escolher amar. Pois é, há mais de 80 anos as mulheres conquistaram o direito de votar. Desde a metade do século passado, podem fazer sexo com quem bem entenderem sem ter o fantasma da gravidez no cangote. São quem mandam em famílias, em empresas e em países. Mas aí vem o assombro: para a maioria das pessoas que vivem no mesmo CEP que a gente, para boa parte dos nossos vizinhos de bairro, para 65% de quem tem a mesma nacionalidade que a nossa família, mulher deve “se dar ao respeito”. Ela deve obediência ao marido e só se sente realizada ao ter filhos e constituir família. Consegue ser mais assustador: essa gente ainda acredita que, “se a mulher soubesse se comportar melhor, haveria menos estupros” ou que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser estupradas”. Se eu pudesse, impediria por decreto que cabeças tão tacanhas assim cruzem seu caminho ou que você se sinta intimidada ao entrar em um ônibus ou no metrô. Publicaria uma ordem para que qualquer machista (e não estou falando só de homens) se mantivesse a no mínimo 300 km de você. Mas o que eu posso mesmo é dizer, afirmar, gritar que, não importa o que você faça, o que você vista, o que você deseje, o controle sobre seu corpo é inalienável. Qualquer estratégia para tirar esse poder de você é violência, que não pode ser aceita ou justificada. Eu sei que é o óbvio, filha, mas como você vê, pouca gente enxerga ou faz valer o óbvio hoje em dia. Então, eu queria que você cultivasse o bom senso a vida inteira. Ele pode salvar você, e é isso que importa. Para terminar, nunca deixe de se achar linda. Você é linda, sem porém. 

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