Uma nova fase de Lô Borges

Cabeça harmônica do Clube da Esquina lança coletânea e estreia turnê com releitura de seus últimos dez anos

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Tempo. Lô Borges vai dar um tempo das composições para se dedicar à estrada em nova turnê pelo Brasil, que estreia hoje
Foto: Gustavo Andrade/O Tempo
Tempo. Lô Borges vai dar um tempo das composições para se dedicar à estrada em nova turnê pelo Brasil, que estreia hoje

“Passei os últimos dez anos em casa e no estúdio, compondo sem parar. Cansei disso. Tô a fim de cair na estrada”. Pelo telefone, a voz de Lô Borges ainda se parece com a do garoto entusiasmado que mudou a cara da MPB aos 18 anos, mas a cabeça apresenta diferenças nítidas daquele jovem alucinado em criar harmonias de forma incansável. É que, aos 62 anos, o “avião de melodias” do Clube da Esquina pediu descanso das composições para se dedicar às músicas dos quatro álbuns mais recentes, que formam a “Coletânea Lô Borges” (2003-2013), lançado pela Ultra Music Records. O resultado é um show inédito que estreia hoje, às 21h, no Teatro Bradesco.

Lô Borges está longe de se eximir da personalidade de compositor assiduamente produtivo, responsável por oito das 21 faixas do antológico disco-manifesto “Clube da Esquina” (1972). A diferença do rapaz de cabelão no ombro que escrevia músicas pela manhã e as gravava na noite do mesmo dia – exemplo do experimental “disco do tênis” (1972), que foi produzido em três meses nesse frisson e virou um álbum clássico – vem da percepção recente de que quantidade nem sempre é qualidade. “Antes de pensar no lançamento do disco que eu estava fazendo, eu já começava a compor para o próximo álbum, aí eu saquei que era perigosa essa minha vontade de compor tão rápido porque eu podia me perder”, afirma o músico, que está lançando, junto com o show, seu songbook.

Perdido ou não, Lô Borges fez 60 músicas nos últimos dez anos, sendo boa parte delas com arranjos mais simples do que os álbuns da década de 70 e 80 – repletos de harmonias complexas. O problema é que, desta vez, o ritmo de criação acelerado fez com que os seus últimos quatro discos de sonoridade mais pop – “Um Dia e Meio” (2003), “Bhanda” (2006), “Harmonia” (2008) e “Horizonte Vertical” (2011) – passassem praticamente despercebidos pelo público e pelos intérpretes, com exceção de Bhanda, que esgotou as vendagens. “Acho que os álbuns se complementam. Depois que juntei as músicas certas na coletânea, vi que os quatro discos são uniformes em um só. É chato exaltar a cria da gente, mas essa coletânea eu considero melhor do que os quatro discos separados”, avalia.

Com gás novo para pegar a estrada, Lô Borges leva para o show de estreia na capital mineira uma colcha de retalhos formada por 14 canções de discos bem distintos, mas que fizeram surgir praticamente um novo trabalho agora. Ao ouvir a coletânea, um misto diverso de várias baladas, rock’ n’ roll, guitarras distorcidas e levadas do velho piano de Lô se dissolvem com sutileza para criar uma obra mais homogênea e sem dispersão aos ouvidos. Tanto que o parceiro de Clube da Esquina Tavinho Moura reconheceu a sonoridade do amigo de longe e atestou o disco como sendo “100% Lô Borges”. “Fiquei muito feliz quando o Tavinho ouviu meu disco, que tem muita coisa diferente mesmo. Ele me disse isso porque tive certeza que posso fazer coisas diferentes e ir no caminho certo”, diz.

Eternas. Além das músicas da coletânea, canções mais do que conhecidas do público também serão interpretadas com nova roupagem, como “Trem Azul”, “Nuvem Cigana”, “Feira Moderna” e “Paisagem na Janela”, que dispensam apresentações. A escolha por não deixar os clássicos de fora pode ser explicada pelo fato de o Clube da Esquina e todas as suas influências continuarem vivas em um de seus principais ícones. É que o menino que aprendeu a cantar, tocar e arranjar ouvindo The Beatles desde moleque ao lado do parceiro Bituca, cita até hoje Paul McCartney para se justificar. “No show do Paul, 80% das músicas são hits dos Beatles. O pessoal que vai me ver tocar quer ouvir o ‘Trem Azul’ e ‘Clube da Esquina nº2’, e eu vou tocar com tesão, como se fosse a primeira vez”, garante.

Mesmo com toda essa vontade nostálgica, essas escolhas musicais em consonância com o público não têm nada de saudosistas. O que acontece com Lô Borges é que ele se permite sonhar, independente do passado e do futuro, com coisas genuinamente novas – tarefa difícil para alguém com 44 anos de carreira e 14 discos lançados, mas que já prepara o 15º álbum de inéditas para o ano que vem (lei mais na página 2).

“Eu acho que tenho poucos discos para a minha carreira. Eu poderia fazer um novo Clube da Esquina, mas ia ser sem graça. O que me move é sonhar e poder realizar, é isso o que faço com a música sempre”. Talvez a nova fase de Lô Borges possa mostrar que os sonhos realmente não envelhecem, mas a chama só se mantém acesa com a cabeça em constante movimento e mutação.

Agenda

O quê. Show de lançamento da Coletânea Lô Borges (2003-2013)

Quando. Hoje, às 21h

Onde. Teatro Bradesco (rua da Bahia, 224, centro)

Quanto. R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada)

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