Ninguém merece

iG Minas Gerais |

O assunto não é inédito. Virou matéria nos jornais e foi destacado na TV. Falaram em outras colunas. Embora seja óbvio, o tema ganhou mais peso ao virar campanha. Repercutiu em pesquisa. Mas ainda não é suficiente. A mim, não importa quantas vezes for repetido. Sabem por quê? Porque não se trata apenas de machismo, sexismo ou preconceito. Envolve uma questão muito maior, diz sobre o respeito. Aliás, tem a ver com a falta dele. É um ranço cultural com o qual não concordo. Nem eu, nem as mulheres de quem falarei hoje. Elas são donas das próprias histórias. Eu as encontrei metrô afora. Poucos dias depois do “boom” das notícias sobre “encoxadores” (termo usado para homens que aproveitam da aglomeração no transporte coletivo para abusar de passageiras). Ainda estava assustada com o resultado da pesquisa do Ipea, na qual 58% dos brasileiros acreditam que, “se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros”. Outros 65,1% concordam total ou parcialmente “que as mulheres que usam roupas ousadas merecem ser atacadas”. Hein? Como assim? Achei sinceramente que estava no século passado... Eu e a Virgínia. Minha primeira colega. Quando entrei no metrô, relativamente vazio, ela já estava lá. Era pouco mais das 9h. De cara, a moça me chamou atenção pelo belo e curto short azul de brim. Camisa para dentro. Um coque casual nos cabelos. Bolsa atravessada no tórax. Maquiagem. O corpo jovem e malhado chama muita atenção. Pernas torneadas que ela não hesita em deixar à mostra. Logo puxei assunto. A universitária sabia exatamente do que eu estava falando. Está indignada e tem vergonha do país onde é preciso uma campanha para falar o óbvio: “Não mereço ser estuprada”. Ela não tem medo de andar com as pernas de fora. Ainda não sofreu nenhum tipo de abuso ou ofensa. Mas olhares rebe de sobra. Todos os dias. De todo tipo, e isso até eu pude perceber. Alguns homens a olham querendo devorá-la, outros só com admiração. Agora, o que causa espanto mesmo são os olhares das mulheres. É delas que vem a maior reprovação. Virgínia diz que não vai mudar de roupa. Nem acho que deveria, pois não há excessos. Ela se veste com o viço dos 20 anos. Ignora solenemente comentários ou recalques. Põe o fone ou pega o livro, não quer perder seu direito. Já a Judith está em outra fase. Viu de tudo nas idas e vindas. Pega o trem lotado. Tem dia que não dá nem pra entrar. Já tem mais de 40 e é o que eu chamaria de mulherão. Uma mulata linda. Empregada doméstica. Também já enfrentou muitos ônibus cheios. Sonha com o dia em que vai sair desse sufoco. Acorda cedo. Prepara o café dos filhos. Rala o dia inteiro. Normalmente se veste com jeans e camiseta justa. Não tem conta de quantos homens já relaram nela. Tenta mudar de lugar ou grita. “Tem uns tarados. Nem eu, nem mulher nenhuma merece isso. Já temos preocupações demais...”, diz revoltada e com toda razão. Minha outra colega, a Rosa, está desacreditada. Hoje, ela pensa exatamente na roupa que vai vestir no dia que precisa pegar ônibus. Faz isso por precaução. Gostaria que a mulher fosse respeitada em toda sua essência. A fala da Rosa mexeu comigo. Olhei para ela e vi cansaço. Loira, de corpo farto, a secretária evita decotes. Sente-se acuada. Foi encoxada várias vezes. Sem contar os homens que mostraram o órgão sexual. Lástima. Então, fica o recado para os desaforados de plantão: não é fácil ser mulher. Escolher a roupa certa. Tomar sempre a melhor decisão. Fazer dez coisas ao mesmo tempo. Ter que estar sempre provando. E ainda conviver com o machismo. Eu não mereço ser desrespeitada. Nem a Rosa, nem Judith, nem Virgínia. Ninguém merece!

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