A sorte não dura para sempre

iG Minas Gerais |

A “Folha de S.Paulo” publicou, no domingo último, interessante crônica do colunista Vinicius Torres Freire com o sugestivo título “Um urubu pousou na minha sorte”, para situar a inusitada ascensão da sra. Dilma Rousseff à Presidência da República, cedida pelo bolso do colete do seu precipitado antecessor e Nosso Guia. Já tratei do tema neste espaço, seja para comentar a estranha ocorrência que retrocedeu o Brasil às práticas da velha República, seja para acentuar que, por pequeno demais que seja, nesse bolso não cabe um candidato e, se couber, revela uma personalidade menor que ele próprio. O citado jornalista escolheu o título sob a inspiração de Augusto dos Anjos, poeta paraibano da corrente parnasiano-simbolista. Formado em direito, nunca advogou. Passou a lecionar para ganhar a vida, aportando, afinal, na cidade mineira de Leopoldina para dirigir-lhe o colégio, falecendo prematuramente em 1911. Deixou publicado apenas um livro de poemas, “Eu”, obra representativa do espírito sincrético da época: parnasianismo, por um lado, e simbolismo, por outra parte, antes de desembocar na virada modernista de 1922. Curiosamente, a sua obra, tendo sobrevivido pelo rigor da forma, acabou recepcionada, mercê da qualidade dos seus versos, pelo gosto popular, o que lhe valeu tornar-se um poeta dos mais lidos do país, em fenômeno ímpar de aceitação popular. Daí, rimas famosas como “quero, arrancado das prisões carnais,/ Viver na luz dos astros mortais”, e a reflexão sobre a sorte, cujo destino final bem pode ser o desaparecimento sob o pouso da ave rejeitada. Na real verdade, não me ocorre, no desejo ou na imaginação, se a sorte finalmente será abatida pelo excesso de despreparo. Se não me engano, o presidente Tancredo Neves costumava observar, com o peso da sabedoria mineira que lhe enriquecia a fascinante inteligência, que a Presidência da República, com a magnificência dos seus poderes e a suntuosidade da chefia do Estado, é obra tecida pelo destino, cujo alcance exige excepcionais virtudes e qualidades. Por possuir estas, até em abundância, é verossímil que assim pensasse, conforme revelou a sua vida pública. Sorte e destino são expressões muito próximas, quase irmãs, em mistério e significado. Ademais, possuía o presidente aquele talento de mineiridade que lhe assegurava a primazia entre os pares. Dizem que a sra. Dilma é mineira. Qualquer brasileiro pode eventualmente nascer em Minas. Mas a honra, por si só, não basta. Do fato do local do nascimento há que ser haurido o chamado “espírito mineiro”, que traduz a essência da nossa alma como povo. Enquanto orna esse a moldura política de alguém, a sorte, o destino costumam juntar-se pelo bem da nação. O resto se alimenta da bravura, da cautela, do comedimento e do equilíbrio, como testemunha o passado destas Gerais. A sra. presidente está distante desses ornamentos. Hélas! Produto da circunstância e da imprudência do patrocinador, não fincará raízes e entrará na história como simples vulto esmaecido na noite procelosa. Lamento que assim seja.

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