Como estaria hoje o Brasil se não houvesse tido a ditadura militar?

iG Minas Gerais |

DUKE
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Pertenço a uma geração que foi e é testemunha ocular desses últimos 50 anos. Talvez por isso, provocam-me, com alguma frequência, com esta pergunta: “Como estaria hoje o Brasil se não houvesse tido a ditadura militar, que durou 21 anos? Estaria melhor ou pior?”. Quem tem 60 anos hoje não tinha, na época, aos 10 anos, consciência do que aconteceu ao país a partir do golpe militar (e civil) de 1964. Alguns anos depois, talvez a partir dos 18 anos, ele se tornou testemunha (e vítima) de um regime que começou com a promessa de eleições diretas em 1965, mas durou nada menos do que 21 anos. Conclusão: qualquer golpe contra as instituições democráticas, por melhores que sejam as intenções, jamais será justificável, mas é também importante que, tantos anos depois, o assunto seja motivo de conversa em rodas de velhos, de jovens ou até de adolescentes. Veio-me agora à mente, leitor, a figura do jornalista e professor de Teoria Geral do Estado (TGE) Orlando de Carvalho, da Faculdade de Direito da UFMG, que, logo após o fatídico AI-5, em meados de dezembro de 1968, e querendo me acalmar (eu era, então, em Minas, diretor regional do “Jornal do Brasil”), me dizia paternalmente: “Meu filho, não se exalte, pois esse regime vem sendo urdido há anos na Escola Superior de Guerra e, certamente, não nos deixará antes de duas décadas, pelo menos”. Em nossa roda de peteca, no último sábado, que às vezes conta com o agradável frescor da juventude (e está lá o Gabriel, que não me deixa mentir), me fizeram essa mesma e capciosa pergunta. Minha resposta nunca precisou passar por reflexão profunda: é evidente, respondi, com absoluta convicção, que, sem a intervenção militar, que durou 21 anos, o país estaria melhor na educação, na saúde, nas artes, na cultura, no jornalismo, na economia etc. Perdemos 21 anos de prática democrática. Um prejuízo incalculável! Se tivéssemos lideranças, naquela ocasião (refiro-me às civis), dispostas e, sobretudo, convencidas da importância do regime democrático (embora contássemos com políticos notáveis), mesmo após o golpe de 1964, que, no início, defendia o retorno do país ao leito democrático, de onde, aliás, nunca deveria ter saído, em 1965 teríamos de novo JK como presidente da República. Cinquenta anos depois, a conclusão é simples: os dois lados não queriam a democracia. Na esquerda, havia algum sonho. Na direita, nada além do que apego ao poder. Não desejo reavivar, leitor, o sofrimento de inúmeros brasileiros ao longo de 21 anos de ausência total de liberdade, tenham sido eles vítimas diretas ou indiretas da brutalidade do regime que se implantou em 1964. Nem tenho o que acrescentar ao que já publicou a imprensa brasileira sobre o assunto até o presente instante. Desejo só ratificar o que muitos já disseram, ou seja, que essa experiência jamais seja esquecida. Que ela nos tenha ensinado que só o Estado de direito democrático é capaz de propiciar melhores dias ao nosso povo. Seria bom, todavia, que puséssemos um fim ao triste ano de 1964. Um bom passo já foi dado pela presidente Dilma Rousseff, ao afirmar que reverencia os que lutaram pela democracia, mas reconhece e valoriza “os pactos políticos que nos levaram à democratização”. Resta agora, às nossas Forças Armadas, um pedido de desculpas. Talvez bastasse, por exemplo, a exclusão – dos currículos dos seus colégios – dessa visão distorcida do golpe militar (e civil) que ensinam aos seus alunos. Ou não devemos aprender com nossos erros?

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