Sobre as origens da intolerância

Longa de Aronofsky é um estudo sobre o fundamentalismo religioso atual

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Atormentado. Crowe tem uma de suas melhores atuações como um Noé consumido pelo peso de sua missão
Paramount
Atormentado. Crowe tem uma de suas melhores atuações como um Noé consumido pelo peso de sua missão

Darren Aronofsky poderia ter feito com “Noé” um filme-irmão de “As Aventuras de Pi”, sobre o mistério da fé que leva o homem a superar e encontrar beleza mesmo diante da mais terrível das tragédias. Mas ele não é um humanista como Ang Lee.

Aronofsky é um realista. Ele não procura enxergar a beleza de uma fábula, mas sim aquele aspecto nela que revela nosso lado mais obscuro, que ajuda a explicar as falhas e imperfeições de nossa cultura.

Por isso, seu Noé (Russell Crowe) é um homem que leu errado. Assim como um Bolsonaro, um Feliciano ou tantos outros, ele é alguém que acredita encontrar na palavra de Deus uma missão. Mas ele contamina essa palavra com toda a dor, ódio, desprezo e falta de compaixão pela humanidade que carrega dentro de si.

E o que o filme de Aronofsky eventualmente revela é que, sem essa compaixão, não há o que salvar. Se o homem é tão vil e intolerante – e aqueles que combatem isso acabam se tornando intolerantes eles mesmos, deixando de enxergar a humanidade de seus oponentes – então, a missão é sem sentido. Não há por que se importar com o que acontece.

E é essa sensação que torna a primeira metade do filme tão ruim. Noé vive com sua família em um mundo devastado pela humanidade, quando passa a sonhar com um dilúvio e percebe que deve construir uma arca. O problema é que não basta mostrar florestas desmatadas, grandes desertos e toda uma paisagem que reflita a decadência inerente a esse universo.

Os homens “maus” devem ter cabelos e barbas malévolas. O diretor tem que mostrar cenas em que as pessoas pisoteiam e matam umas às outras por comida – e deixam bem claro que é isso que estão fazendo nos diálogos, redundando sua pobreza de espírito (e da dramaturgia do roteiro). É tudo muito over e pouco sutil.

O pior sintoma disso são os “guardiões”, anjos que caíram na Terra para tentar ajudar os humanos, mas acabaram se tornando gigantes de pedra. Se a ideia de que toda a beleza divina foi destruída e transformada em pedra pelos homens ainda não estava bastante clara, esses monstros de CGI – enormes e nada orgânicos ao restante do universo do longa – estão ali para lembrar o espectador.

“Noé” só lembra um filme do diretor de “Cisne Negro” e “Réquiem para um Sonho” depois que o dilúvio se abate e os personagens são confinados na arca. É ali dentro que o protagonista vivido por Russell Crowe – assim como a bailarina vivida por Natalie Portman, ou a mãe viciada de Ellen Burstyn – se torna um homem obcecado em executar sua missão, perdendo lentamente sua humanidade e sua sanidade no processo.

É no drama e nos conflitos que vão eclodir entre os membros da família que Aronofsky confirma o bom diretor que pode ser. Os animais de CGI já foram feitos com muito mais perfeição em “As Aventuras de Pi”. E as imagens do dilúvio não chegam aos pés de “O Impossível”. Aronofsky não sabe lidar muito bem com uma cinematografia de escala épica. É ao trazer à tona o lado mais sombrio e os medos mais aterrorizantes da psique de seus personagens que o diretor parece mais em casa.

Depois de tantos filmes ruins, Jennifer Connelly parece enferrujada e exagerada em sua cena mais emocional como a esposa, Naameh. Já o promissor Logan Lerman (“As Vantagens de Ser Invisível”) faz seu melhor com o pouco tempo que Cam, filho de Noé, tem para um arco dramático tão complexo. Mas os destaques são Russell Crowe e Emma Watson, que tem um papel central e não decepciona no ato final como a jovem Ila.

É na força da atuação deles que “Noé” descobre o que quer ser antes que seja tarde demais. Ainda que com muitas falhas, o longa consegue responder à pergunta que coloca: o que faz de nós humanos? É a capacidade de escolher perdoar e amar não os bons, mas aqueles que nos machucam. A capacidade de enxergar em Bolsonaro e Feliciano a possibilidade do amor.

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