Encontros transformadores

Atriz Denise Fraga traz à cidade “Chorinho”, espetáculo sobre a relação de uma aposentada e uma moradora de rua

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Percurso. Peça está há dois anos em cartaz e recebeu o prêmio APCA
João Caldas/Divulgação
Percurso. Peça está há dois anos em cartaz e recebeu o prêmio APCA

O que o riso tem de revolucionário? Como a comédia pode servir de ferramenta para a reflexão e conscientização social? Tais perguntas passam por um pensamento que eleva o gênero (a comédia) ao mesmo nível do drama e já, lá nos idos dos anos 1930, era preconizado por um pensador, dramaturgo e encenador teatral que mudaria a história do teatro do século XX: o alemão Bertolt Brecht e seu teatro épico. Diria ele, “O sofrimento desse homem, comove-me, porque seria remediável. Isto é que é arte! Nada ali é evidente – rio de quem chora e chora com os que riem”. Influenciada pelo pensador alemão, a atriz Denise Fraga tem concentrado boa parte do seu trabalho – dos últimos anos, no teatro – na comédia, mas sempre tendo em vista o papel revolucionário que o riso pode ter. Assim, ela chega a Belo Horizonte com o espetáculo “Chorinho”, que fará apresentações no Grande Teatro do Palácio das Artes sábado e domingo. “Meus últimos trabalhos são todos nesse campo. Sempre é uma coisa cômica, mas tem um quê de reflexão”, garante. Escrita e dirigida por Fauzi Arap, a peça – que recebeu o prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) na categoria melhor autor – revela o encontro (e os conflitos de visões de mundo) de duas mulheres que frequentam a mesma praça, de uma grande cidade qualquer. São uma senhora aposentada e uma moradora de rua. “Tudo começa quando a moradora de rua pergunta à senhora por que ela faz isso. A senhora responde ‘isso o que?’ e aí a moradora de rua responde ‘fingir que eu não existo”, antecipa Denise. “O espetáculo tem uma estrutura muito simples, que valoriza a palavra, o texto do Fauzi. As duas personagens têm uma relação de espelho. Elas são aparentemente de mundos muito distantes, diferentes, mas vão se aproximando e percebemos como todos têm um pouco de todo mundo”, destaca Denise. Segundo a atriz, o processo de construção do espetáculo foi muito prazeroso, nas palavras dela própria “sopa no mel”, porque possibilitou o reencontro com Fauzi Arap. “Ele sempre foi meu guru. Eu sempre estive perto dele e conversávamos de trabalho. É uma espécie de referência para todos os que trabalharam com ele. E não digo que ele seja somente para quem faça teatro, é um guru da vida”, destaca. A atriz procurava um texto que falasse sobre a dificuldade e o medo que as pessoas têm em conviver com o outro, com o diferente. Daí, segundo ela, depois de muitas conversas com Arap, ele ligou para ela (“às sete da manhã!”) com a sugestão de que encenasse “Chorinho” com Cláudia Mello – com quem já havia dividido o palco em “A Alma Boa de Setsuan”, não à toa, um texto de Bertolt Brecht. “Ali tinha tudo que eu queria, porque além de falar desse medo que temos um do outro, há a possibilidade de mudança que o texto propõe. Eu me sinto uma privilegiada, porque fui dirigida pelo Fauzi num período que ele não já aceitava tantos trabalhos de direção. Nós ensaiávamos na casa dele, na minha casa. Foi uma experiência muito carinhosa”, revela Denise. Ela também destaca sua parceira de cena. “A Cláudia é uma atriz única, extraordinária. E nós já tínhamos uma relação com o Fauzi. Talvez ela seja a pessoa com quem eu mais tenha intimidade no teatro. Íntima até demais!”, brinca. Dada o entusiasmo que a atriz demonstra numa bem humorada conversa pelo telefone, o espetáculo parece ser desses raros encontros artísticos que resultam em belos trabalhos e possibilitam aos artistas estreitar laços entre si. A nota triste é que Fauzi Arab faleceu em dezembro de 2013, quando as duas atrizes preparavam para apresentações em Brasília. “Nós sabíamos que a saúde dele estava comprometida, mas ele escondeu de quase todo mundo quão grave era a sua real situação”, lamenta a atriz. TRAJETÓRIA. A trajetória de sucesso de “Chorinho”, que estreou há dois anos, não era algo esperado por Denise. Ainda assim, os poucos recursos cênicos (apenas um banco no centro do palco), o elenco com apenas duas atrizes e o bom retorno das plateias pelo Brasil dão fôlego à peça. “Esse espetáculo a gente carrega em duas malas apenas. E sempre que temos espaço em nossas agendas programamos nossas temporadas”, ressalta Denise. Agenda O quê. “Chorinho” Quando. Sábado, às 21h; e domingo, às 20h Onde. Grande Teatro do Palácio das Artes (avenida Afonso Pena, 1.537, centro) Quanto. Entre R$ 70,00 e R$ 50; Entre R$ 35 e R$ 25 (meia-entrada) 

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