A lâmpada que explode

iG Minas Gerais |

Talvez a palavra mais adequada seja trauma. Sua pior versão, paranoia. O terror, mesmo para quem não o viveu, vira cultura do medo. Os relatos estão aí estampados, hoje, e acentuam essa profundidade psicológica coletiva, essa cultura. São todos eles casos verídicos. De mentira, só a data: 1º de abril. Nós, brasileiros, parecemos ter a missão eterna de nos confrontar com esta pergunta ao acordarmos diariamente: quando confiaremos plenamente nas nossas instituições de Estado e de utilidade pública? Ou a mesma questão posta de outra forma: quando confiaremos nos concidadãos que foram imbuídos por nós para comandar essas instituições? Depois de 50 anos, o país é outro, como de resto o mundo. Os yankees venceram, e o comunismo são retratos nas paredes e estátuas de concreto em realidades frias e distantes. Logo, também por razões internas, a trajetória da história aponta para a impossibilidade de uma nova ditadura por aqui. Os próprios militares reconhecem isso nestes dias. Mas o impossível, de fato, supera a dimensão do improvável? Ou seja, é mesmo um risco sepultado? Tem aí um quinto da população para o qual o legado do regime militar é positivo. É possível serem os mesmos que defendem uma intervenção dura na administração pública contra uma corrupção que se prova endêmica, que postulam como bandeiras o “Fora, Fulano” e o “Fora, Beltrano”, tendo Fulano e Beltrano sido eleitos. Há outros tantos (ou os mesmos) que exaltam a redução da maioridade penal como pedra angular para os problemas da segurança, que advogam o direito do porte de armas de fogo – já que a polícia não funciona e é corrupta, já que os marginais andam soltos e os “cidadãos de bem”, presos – e para os quais “bandido bom é bandido morto”. Existem também (quem sabe ainda os mesmos) os que insistem em enxergar os gays como aberrações a se corrigir à paulada na rua, os negros e índios como sub-raça e o pouco comprimento da saia, a razão do estupro. Em suma, uma parcela dos brasileiros talvez se incomode com um suposto excesso de liberdade, que (julgam estes), justamente por se exceder, avilta-se. O câmbio de liberdade por segurança é uma constante na história das sociedades, é um tema clássico: menos autonomia por mais garantias na vida social. Sempre compõe um tipo de revés radical e preocupante. Pois parece que, entre nós, os átomos e os gases estão por aí, soltos, desarticulados. Basta uma corrente elétrica eficaz passar de um lado para outro para conectá-los e fazer brilhar a luz, que se suporá a mais clara e potente de todas. Tão radiante a ponto de estourar o próprio vidro. O homem apto a acender essa luz ao ordenar a bagunça dos átomos aguarda apenas o momento propício de escuridão para acionar o interruptor. Tamanho apocalipse talvez seja fruto do trauma, filho da paranoia. Mas é que, entre os gases, em volta das nossas suspeitas instituições, ainda falta um bocado de recheio cívico.

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