Sensibilidade de Anne Frank

Mostra inédita em Belo Horizonte relaciona os sentimentos vividos pela garota judia com os direitos humanos

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Painéis. Fotografias de Anne Frank, mostrando tanta a doçura como o desespero velado da garota, fazem parte da exposição
Divulgacao / Anne Frank Museum
Painéis. Fotografias de Anne Frank, mostrando tanta a doçura como o desespero velado da garota, fazem parte da exposição

“Recordações valem mais do que vestidos. E, sim, estamos vivos, mas não sabemos para que ou porque. Apenas que ainda procuramos a felicidade”. Há 66 anos, a adolescente judia Anne Frank marcava em seu diário uma das passagens mais absolutas para resumir a memória obscura do nazismo. Mesmo com a pressão da tortura, o medo diário da morte e a incerteza de qualquer futuro, ela nunca deixou de carregar filetes de esperança em seus escritos. É com essa espécie de luz atiçada sobre um passado de trevas que a exposição “Brasil e Holanda – Paz e Justiça – Refletindo sobre o Passado, Construindo o Futuro” traz pela primeira vez a Belo Horizonte peças exclusivas da Casa de Anne Frank, direto do museu de Amsterdã, na Holanda.

A exposição, que será montada na Faculdade de Direito Dom Helder Câmara, no bairro Santa Efigênia, a partir desta quinta-feira, expõe a vida de Anne Frank, mas vai muito além de dissecar a história triste da judia franzina e recatada, que foi torturada e morta após passar mais de um ano no campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha.

Em um conjunto de 30 grandes painéis trazidos de Amsterdã, os visitantes vão percorrer de forma cronológica, além de fatos datados pela história, os sentimentos de Anne. De todas as figuras, 13 imagens coloridas e em preto e branco vão revelar uma Anne de sorriso doce e ao mesmo tempo carregada em expressões de desespero velado, assim como ela transpareceu em seu diário o sentimento de tentar encontrar alternativas para a crueldade que parecia inevitável de fugir em 1945 – “pelo menos posso escrever; senão, me asfixiaria completamente”.

Logo em seguida, seis painéis revisitam o pequeno quarto em que Anne viveu dos 13 aos 14 anos: um local insalubre e escuro, que serviu como esconderijo para a garota, e onde hoje funciona a Casa de Anne Frank, no centro de Amsterdã. Por fim, mais 11 figuras da exposição revelam detalhes e depoimentos de vítimas do Holocausto, como o próprio pai de Anne, Otto H. Frank, responsável por editar o famoso livro “O Diário de Anne Frank”.

“Os painéis contam a história de Anne de uma forma mais sensível. Quisemos mostrar também a Anne que sofria e, ingenuamente, conservou uma esperança bonita, mas repleta de dúvidas na humanidade. São resquícios mais fundos do que ela e outros seis milhões de judeus sentiram diretamente na pele”, avalia a curadora da exposição, Joelke Offringa, diretora Plataforma Brasil Holanda, entidade que representa a fundação holandesa Anne Frank House.

Apesar de ser dedicada a Anne Frank, a exposição também vai abordar outros dois temas diretamente relacionados aos direitos humanos, assim como o Holocausto. Para tanto, a mostra terá cinco painéis dedicados à histórica cidade de Haia, na Holanda, onde foram firmados os primeiros tratados internacionais sobre crimes de guerra e onde se encontra a atual Corte Internacional de Justiça (CIJ), criada após a 2ª Guerra Mundial.

Outras cinco imagens complementares vão mais fundo na história ao contar a vida do conde holandês João Maurício de Nassau, que governou o Brasil entre 1637 e 1644 e, apesar de trazer progresso com a construção de pontes, escolas, hospitais e bibliotecas, contribuiu para arraigar a escravidão em terras tupiniquins. “Essa conexão entre os temas é extremamente importante porque a mostra é também um chamado para a não-violação dos direitos humanos. Aproveitamos a história de Anne Frank, que se refugiou na Holanda, para mostrar que Brasil e Holanda podem dar lições de direitos humanos e não repetir um passado terrível”, avalia William Santos, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MG).

Depois de Belo Horizonte, a exposição segue para as cidades de São Paulo (em junho) e Porto Alegre (entre outubro e setembro).

Agenda

O que. “Brasil e Holanda – Paz e Justiça – Refletindo sobre o passado, construindo o futuro”

Quando. De 3 a 31 de maio

Onde. Faculdade de Direito Dom Helder Câmara (rua Álvares Maciel, 628, Santa Efigênia

Quanto. Entrada franca

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