Imprensa alternativa no foco

“Resistir É Preciso...” conta a trajetória de veículos, desde dom João VI no Brasil, com foco na época da ditadura

iG Minas Gerais |

Crítico. Millôr é um dos personagens da série, com a suao “PifPaf
Marcos de Paula/AE
Crítico. Millôr é um dos personagens da série, com a suao “PifPaf

SÃO PAULO. No dia 21 de maio de 1964, menos de dois meses após o golpe que derrubou João Goulart da Presidência da República, o jornalista Millôr Fernandes começou a distribuir em bancas do Rio de Janeiro o primeiro exemplar da revista “PifPaf”. 

Inteligente, irônica e engraçada, a primeira publicação de oposição frontal à ditadura ficou famosa, entre outras coisas, pela seguinte advertência na contracapa de uma de suas edições: “Se o governo continuar deixando que circule esta revista, com toda sua irreverência e crítica, dentro em breve estaremos caindo numa democracia”.

O recado parece ter sido bem entendido. Proibida, a publicação não passaria da 8ª edição. E a ditadura duraria 21 anos. Esta e outras histórias de heroísmo, voluntarismo, porralouquismo, coragem, ousadia, irresponsabilidade, excesso de responsabilidade e enfrentamento são o tema da série de TV “Resistir É Preciso...”, o primeiro documentário que propõe a contar toda a trajetória da imprensa alternativa, a clandestina e uma curiosa imprensa de oposição feita no exílio durante a ditadura.

Os cinco primeiros episódios estão sendo apresentados até sexta-feira na TV Brasil, sempre às 19h30. Os programas seguintes vão do dia 31 a 4 de abril, no mesmo horário.

O foco é no período 1964-1979, mas são retratados veículos alternativos desde a chegada de dom João VI no Brasil. O primeiro deles foi o famoso “Correio Braziliense” de 1808, marco do início da imprensa no país. O jornal de Hipólito José da Costa era editado em Londres e distribuído clandestinamente por aqui, já que não tinha permissão da foragida corte portuguesa que havia acabado de se instalar no Brasil.

A série impressiona pela pesquisa. Em três anos de trabalho, os produtores recuperaram uma coleção grande e bastante diversificada de veículos. Além dos clássicos famosos de sempre, como “O Pasquim”, “Opinião”, “O Sol” e “Movimento”, estão lá quase uma centena de veículos operários, estudantis, regionais e comunitários pouco conhecidos. Mais de 50 jornalistas, chargistas e militantes políticos dão depoimentos.

O tom às vezes jubiloso demais do documentário nem sempre combina com as histórias retratadas, muitas de perseguição política, censura, prisões e outras violências. Já a ocasião para reflexões sobre tema não poderia ser mais apropriada. Combina com a efeméride dos 50 anos do golpe e com a intensificação dos debates a respeito da Comissão Nacional da Verdade e da conveniência de manutenção da Lei da Anistia.

A apresentação de “Resistir É Preciso...” é feita pelo ator Othon Bastos, com participação especial dos chargistas Chico e Paulo Caruso. Coproduzido pela TV Brasil, TC Filmes e TVM, a série foi concebida e dirigida pelo jornalista Ricardo Carvalho.

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