O teatro utilizado como palco da performance

iG Minas Gerais | Gustavo Falabella |

Diogo Liberano comandou um grupo de performances no Rio
festival de curitiba/divulgação
Diogo Liberano comandou um grupo de performances no Rio

Curitiba. Não é raro ouvir que as apresentações de teatro, circo, dança, mesmo que sejam ensaiadas ou coreografadas, tragam um frescor do aqui e agora. A performance, no âmbito das artes cênicas, talvez seja o campo que guarde mais riscos (ou surpresas) na relação entre performer e seu público. Esse espaço do risco é explorado no espetáculo “Concreto Armado”, do Teatro Inominável, do Rio de Janeiro, como possibilidade de diálogo que cerca a temática escolhida pela peça.

“As performances, da mesma forma, que destroem a noção de espetáculo e representação, elas ocupam um lugar de atualização dos temas. Eu tento buscar como diretor que o espetáculo seja um retrato do momento e não uma página em branco que deve ser escrita a cada dia”, diz Diogo Liberano, diretor do espetáculo.

Durante o processo de criação da obra, o grupo se enveredou por um ciclo de performances individuais que aconteceram nas ruas do Rio de Janeiro e levavam um caráter político ligado à cidade e aos impactos proporcionados pela aproximação da Copa do Mundo de 2014. “Nós fizemos um programa de performances e passamos a trabalhar, produzir textos e fazer cenas. Duas semanas antes da estreia, a gente mudou tudo, porque entendemos que tínhamos que ter performances em cena. Eu dei alguns estímulos aos atores e fizemos alguns combinados, porque são performances dentro do espetáculo. Cada um criou a sua, sem ninguém saber”, revela o diretor.

Liberano, formado no curso de direção em teatro da Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi aluno e se aproximou da pensadora, performer, professora e diretora Eleonora Fabião, uma das referências nacionais no campo da performance, que esteve em Belo Horizonte recentemente por conta do Acto 3, encontro de teatro realizado pelo Espanca!.

“A Eleonora é determinante na minha vida, na minha trajetória como aluno, pessoa, diretor. Ela abriu buracos, para mim, que nunca irão se fechar. Eu acho que o (Teatro) Inominável foi criando um gosto pela performance. A gente foi compreendendo a emergência da idiossincrasia. Aprendemos que nada vale mais que o meu corpo querendo dizer algo. Nada é mais importante que o nosso olhar sobre as coisas. Nenhuma historiografia do teatro, nenhuma linguagem, nada é mais importante do que o que nós achamos sobre aquele assunto. Independente da moral que se tem”, destaca o artista.

Premido por um olhar mais abrangente de sua obra, e por influência direta da professora, Liberano destaca uma relação profunda e intensa entre aquilo que se é e aquilo se faz, quando se fala de artes. “Vai se criando um entendimento de performance que se alastra. No final das contas, a performance é uma maneira de ser e estar. Quando entrei na faculdade, acho que eu nunca tinha ouvido a palavra performance. Eu olhava para Eleonora passando no corredor e eu não conseguia parar de pensar que ela está interpretando o tempo todo. O tempo foi passando e eu me aproximando. Daí, eu compreendi que ela era uma performance ambulante. Afinal de contas, ela é mãe, cidadã, mulher e professora. Tem sua vida, mas ela tem uma maneira de olhar o mundo e gerenciar os afetos e as relações que é se colocar o tempo inteiro. Não se descansa. Isso afeta nosso trabalho”, conclui.

O jornalista viajou a convite do festival

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