Cinquenta anos do golpe: nenhuma luta foi em vão

Um relato de Fernando Pimentel, ex-prefeito de Belo Horizonte e militante durante a ditadura militar

iG Minas Gerais |

Elza Fiúza/ABr
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Sobre a ditadura militar, iniciada com o golpe de 1964, dispenso a isenção, posto que tive e tenho um lado nessa história. A minha experiência pessoal impede-me de buscar qualquer conciliação (atributo que pratico e prezo muito na política) neste caso.

Vivia meus 13 anos no dia em que os militares derrubaram o presidente João Goulart.

Quatro anos depois, em 1967, como muitos jovens de Minas Gerias e do Brasil afora, entrei para a militância no movimento estudantil. Com o recrudescimento da repressão política, em 1968, aderi à Colina, organização política clandestina de resistência à ditadura.

Já em 1969, meses após o decreto do Ato Institucional número 5, o nefasto AI-5, a polícia política prendeu vários integrantes do nosso grupo. A barra pesou. Consegui escapar, mas tive que passar à clandestinidade. Um ano depois, acabei preso em Porto Alegre.

Entre outubro de 1969 e março de 1974, no governo do General Emílio Garrastazu Médici, estive a maior parte do tempo preso. Minhas lembranças sobre a ditadura militar, portanto, estão matizadas pelas cores mais sombrias daqueles anos terríveis.

Só nos anos Médici, foram 155 mortos e desaparecidos, a maior parte nas salas de tortura da repressão. Milhares de prisões, centenas de condenações pela Justiça Militar. A frieza dos números não é capaz de traduzir o horror que imperava nos porões da ditadura.

Todos esses dolorosos fatos eu acompanhei da prisão. Ali, a realidade cotidiana é o poder absoluto do inimigo, o poder de vida e morte. Onde todo o clima é criado para mostrar o absurdo, a infantilidade até, da luta que se tentou. Ali, tivemos de resistir ao desespero e buscar forças para sobreviver física e moralmente.

Até a redemocratização, os desdobramentos do golpe de 1964 pareciam impor para a parcela mais rebelde, mais solidária, mais politizada da juventude, a sensação de que o berço esplêndido se transformara em sepultura anônima. A história, implacável, parecia cobrar o tributo dos vencidos.

Cinquenta anos se sucederam. Entre uma miríade de questões sobre a ditadura, na perspectiva dos que não temeram enfrentar a mão pesada do aparato militar, cabe perguntar: o que restou daquilo tudo hoje, além da dor – que essa não passa – pelos companheiros mortos?

Aquele menino de 13 anos em 1964 revisita agora o homem de 63 anos em 2014. Para ambos, restou a convicção de que nenhuma luta foi em vão.

Sobrou a certeza de que os vencidos de ontem são os vencedores no Brasil democrático.

De que a resistência à ditadura fortaleceu os organismos da sociedade civil que lideraram o processo histórico que culminou com as manifestações pelo voto popular há trinta anos, as Diretas Já.

A melhor resposta à barbárie dos Anos de Chumbo está aí: com a herança dos que ousaram resistir, o Brasil superou a ditadura militar e tornou-se uma das maiores e mais sólidas democracias do mundo. Hoje podemos proclamar serena, mas firmemente, ecoando milhões de vozes por todo o país: ditadura, nunca mais!

Fernando Pimentel é ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (2011-2014). Foi prefeito de Belo Horizonte (2003-2008). 

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