É culpa da natureza, estúpido! – O Instinto Selvagem

iG Minas Gerais |

Intervenção sobre imagem do Beagle, navio em que viajou Darwin
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O último filme da trilogia Qatsi, de Godfrey Reggio, foi “Naqoyqatsi”, de 2002, e seu título original, em língua hopi, pode ser traduzido por “A vida como guerra”. A trilha sonora é de Philip Glass e não dá para explicar a patética fusão de som e imagem resultantes. A dupla é também responsável por “Anima Mundi” (A alma do mundo, expressão forjada por Platão), de 1992, que mostra uma visão quase idílica da vida animal, com cenas de deslumbrante beleza ancoradas no minimalismo de Glass. Lembrei-me deles ao receber um pequeno documentário pela internet, pouco mais de três minutos, enviado pelo velho amigo Raul Alvarenga Sobrinho. O título traduzido seria “Sou pequeno, mas sou um grande vencedor”. O enredo sugere as quatro mãos da dupla. VENCEDOR? O vibrante documentário narra, com extraordinária riqueza de montagem e fusões, a luta pela vida entre um falcão e um esquilo, numa floresta sem nome. Começa com o esquilo roendo uma amêndoa, observado do alto pela grande ave de rapina. De repente, o falcão desce em voo de caça, sendo imediatamente percebido pelo arisco roedor, que larga a comida e dispara pela mata rumo ao ninho, construído entre grossos galhos. Na sequência, o esquilo entra “em casa”, o falcão titubeia, parece pensar, e acaba por se lançar contra o ninho, que derruba, e com ele o esquilo. Recomeça a perseguição. Corre um, voa o outro, sempre entre cipós, ramos e troncos. Quando parece não ter escapatória, força o esquilo a entrada de um buraco numa árvore, enfiando-se nele antes da chegada do falcão. No final, ambos se observam, um de fora, outro bem no fundo. Excelente como desfecho romântico, o documentário é um fracasso como amostra do que se chama cadeia alimentar. O esquilo perdeu a amêndoa, o falcão perdeu o esquilo. Ambos ficaram com fome e, caso o desfecho se repetisse algumas vezes, morreriam de fome, vitimados pelo lirismo. VIDA É GUERRA Quando viajou pelo mundo durante cinco anos, Charles Darwin se espantou com o desperdício resultante das experiências da natureza com os seres vivos. Foi das anotações a bordo do “Beagle”, veleiro em que varreu os oceanos, visitando inclusive o Brasil com pouco mais de 20 anos, que décadas depois extraiu “A Origem das Espécies”. Observando a horrível e permanente comilança na terra e no mar, chegou à teoria da evolução e ao drama da sobrevivência dos mais aptos. Em filosofia, a ideia é horrível, em biologia não passa de constatação de fatos elementares: a vida é guerra, se não no sentido de matança por objetivos nem sempre justos, mas por necessidade de obter o necessário à sobrevivência. Uns ganham, outros perdem, e a vida continua. Ou não. OLHO POR OLHO No último número da revista “Ciência Hoje”, cinco pesquisadores (Thiago Gonçalves dos Santos Martins, Ana Luiza Fontes de Azevedo Costa, Elizabeth Nogueira Martins, Ricardo Vieira Martins e Otaviano Helene) publicaram o ensaio “Desvendando a visão”, sobre evolução ocular, tipos de olho e a relação dos seres vivos com o ambiente. Segundo ele, os olhos, definidos como órgãos que captam a luz do exterior para que o cérebro a traduza em imagens, surgiram há pouco mais de meio bilhão de anos. No início, eram simples sensores, ajudando os organismos a se adaptarem ao ciclo dia-noite. Com o tempo, chegou-se a três tipos de sistemas visuais. O grupo mais simples comporta olhos formados por câmaras escuras com uma abertura para a entrada da luz. O segundo grupo é o dos olhos compostos, com grande número de unidades agrupadas numa superfície convexa. Em cada olho uma formiga tem cerca de 50 facetas, mas algumas moscas e mariposas chegam a ter 30 mil. O terceiro grupo, de sistemas ópticos convergentes, é típico do polvo, de certas aranhas e dos vertebrados. Custou meio bilhão de anos! MEIO AMBIENTE Uma suposta catástrofe ambiental, iniciada na virada do século passado e com ápice marcado para o final do XXI, sugere que até 90% da humanidade deverá morrer, acuada por seca, inundações, escassa produção de alimentos e diversos eventos relacionados com mudanças climáticas extremas. Fatores menores, como o progressivo desaparecimento de certas abelhas, principais responsáveis pela polinização, entram na conta e aumentam o preço a ser pago, se medidas urgentes não forem tomadas. Duas conclusões se podem tirar dessas questões. A primeira, é a de que a natureza é impiedosa mas também genial na busca de seus objetivos. A permanente carnificina prova a impiedade. O olho humano referenda a genialidade. A segunda é a de que não estamos colaborando de forma alguma para a prevenção da catástrofe. Não estamos nem iremos colaborar, seja na porção setentrional, que detém o poder e a riqueza do mundo, seja na meridional, que luta para se equilibrar. Os lá de cima são como o falcão e nós, aqui embaixo, exemplificamos o esquilo. SELVAGERIA O avanço do capitalismo e da globalização, que atingiu o ápice nos últimos 20 anos, parece ter nos condenado à morte. O individualismo predador alcançou proporções inimagináveis, em todos os países do mundo, exceto nos pequenos rincões que ainda resistem, seja pela ênfase na civilização ética, seja pelo compromisso de igualdade social, ou próximo disto. Mas são oásis no deserto. A sociedade como um todo é agressiva, elitista e predadora. Os indivíduos, tomados isoladamente, são predadores, elitistas e agressivos. A ideia central da teoria da evolução, de que a vida é a luta pela sobrevivência dos mais aptos, está amplamente aceita entre nós, e não apenas relegada ao fundo do oceano ou às profundezas das florestas. As cidades são hoje mais sangrentas do que mares e florestas. Não que se mate mais, apenas se mata com mais selvageria. Como nas florestas e nos mares, o interesse coletivo deixou de existir. Resta-nos apenas a luta individual pelo poder e pela acumulação. 

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