Contra a violação, a verdade

Depoimentos dados à Comissão Nacional da Verdade ajudam a esclarecer crimes da ditadura

iG Minas Gerais | carla alves |

Sobrevivente. Torturada na Casa da Morte, Inês Etienne teve seu martírio investigado pela Comissão Nacional da Verdade
Tânia Rêgo/ Agência Brasil
Sobrevivente. Torturada na Casa da Morte, Inês Etienne teve seu martírio investigado pela Comissão Nacional da Verdade

“Você não tem mais o que temer. Sua missão está cumprida. Você venceu”. Com essas palavras a dona de casa Celina Romeu encerrou um emocionado depoimento à Comissão Nacional da Verdade (CNV), na última semana. Ela se referia à irmã, Inês Etienne Romeu, que, sentada ao lado dela, viu um pouco do seu martírio ser contado por testemunhos, vídeos e relatos da investigação policial.

Única sobrevivente do local que ganhou o nome de Casa da Morte, em Petrópolis, no Rio de Janeiro, Inês foi a última, entre todos os presos políticos, a ser libertada. Hoje, aos 69 anos, anda e fala com dificuldades, fruto de um ataque, ainda não esclarecido, em 2003. Na juventude, como bancária, foi capturada por militares da ditadura.

Surrada quase diariamente nos 96 dias em que foi mantida em cárcere na casa, Inês por pouco não chegou à morte. Apanhou, foi estuprada, levou choques. Limpava a cozinha completamente nua, enquanto ouvia gracejos dos homens que a torturavam. Até ser deixada aos trapos, em 1971, na porta da casa da irmã, na Pampulha, em Belo Horizonte, Inês viu vários amigos chegarem à Casa da Morte e saírem mortos.

A ex-bancária, que mais tarde se dedicou ao curso de história, só conseguiu ser retirada da casa após convencer seus torturadores de que se tornaria uma informante do Exército.

Oito anos se passaram como presa política, no Rio de Janeiro, até que Inês conseguiu a anistia e pôde finalmente revelar, num depoimento histórico, o que passou. “A Casa da Morte elevou os desaparecimentos a uma política de Estado, operada pelo Exército”, concluiu o coordenador da comissão, Pedro Dallari. A comissão relacionou 27 nomes de desaparecidos políticos que podem ter passado pelo local e, agora, tenta descobrir outros pontos clandestinos de tortura, inclusive em Minas.

Com base no depoimento de Inês, a comissão identificou torturadores e saiu em diligências. Há 15 dias, ao receber em sua casa o delegado Daniel Lerner, cedido pela Polícia Federal à CNV, Inês deu mais uma demonstração de ter preservado uma invejável memória.

A mulher que conseguiu levar a polícia à Casa da Morte, dez anos após ter vivido no lugar – ela guardou na mente o número da casa, nome do caseiro e até do cachorro mantido pelos militares – , identificou no meio de uma pilha de fotos antigas, um a um, seis homens que a submeteram a rotinas impressionantes de espancamentos.

Assim como Inês, outras vítimas das atrocidades praticadas na ditadura encontram na comissão o respaldo para revelarem o que sofreram. Criada em maio de 2012, a CNV realizou até a última terça-feira 61 audiências públicas, com pelo menos 450 pessoas ouvidas.

Só em Minas, foram três eventos públicos. Dos encontros e de depoimentos tomados em sigilo, a comissão tem conseguido importantes avanços na apuração das graves violações dos direitos humanos cometidas no Brasil entre 1946 e 1988. O relatório final, que é um documento público, está marcado para ser concluído em dezembro deste ano. Na prática, algumas medidas já foram possíveis como a definida pela Justiça de São Paulo, que, após recomendação do grupo, determinou a mudança do registro de óbito do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, com a confirmação de que ele não resistiu aos maus-tratos sofridos nas dependências do Exército. Para Pedro Dallari, o principal desafio à conclusão do relatório é em relação à liberação de documentos secretos das Forças Armadas, que têm a memória dos 21 anos de repressão política.

Na semana passada, quando a história da ex-militante Inês Etienne foi mostrada, muitos choraram. Aos responsáveis pela crueldade, mais que revelar seus mistérios, por enquanto, só resta a vergonha.

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