Pra não dizer que não falei de mim

Produção artística do período sobrevive porque foi feita para o indivíduo, e não para a ditadura

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

WILSON SANTOS/CPDOC JB
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O brasileiro não lê história. Ele não reflete sobre o passado. E, quando o faz, é para justificar suas falhas do presente ou sua recusa em construir um futuro. Um dos sintomas mais claros dessa trifeta cultural é o senso comum de que a produção artística era “melhor, mais politizada, mais relevante ou mais pungente” durante a ditadura militar. “Os anos 1960 e 1970 são de uma reduzida oxigenação política, e o discurso artístico se politizou muito, mas isso não tem uma conotação qualitativa”, opina o professor de história da UFMG João Pinto Furtado. Para ele, esse saudosismo é uma criação mistificadora produzida por um senso inflado de autovalorização dos próprios elaboradores dessa cultura. O “Pasquim” se satirizava muito dizendo que era o melhor jornal da zonal Sul carioca. O resto do país lia porque queria estar em Ipanema, no Leblon, que é onde essa geração estava. Essa nostalgia por uma arte melhor é, na verdade, os caras sentindo falta dessa juventude”, provoca. Partidário de que toda arte é engajada, mas nem sempre da mesma maneira, Furtado acredita que a cultura hoje é muito “mais aberta, menos machista, mais anti-homofóbica” que a da década de 60. “O próprio Caetano hoje é visto como um grande opositor do regime, quando o que ele estava questionando, na verdade, eram a moral e os valores da época”, afirma a professora de história da PUC Minas Natália Barud. Segundo ela, é a estética que vai dar o tom da obra, com o tropicalismo incomodando muito mais que artistas mais vinculados à esquerda. “O Caetano cantando e dançando de forma feminina é muito mais chocante que o Chico e seu violão, que era bem mais politizado, mas não foi mandado para fora do Brasil”, analisa. Ela acrescenta que muitas vezes a resposta ao artista ultrapassa seu objetivo “e é interessante como essas questões não estritamente políticas dialogam com o regime”. Negócio da cultura. Barud, que pesquisou no mestrado a montagem da peça “Liberdade, Liberdade” pelo grupo Opinião,que ficou em cartaz entre 1965 e 1967, afirma ainda que é importante ressaltar que a ditadura não cria nada inovador. “Muito do que foi feito em termos de teatro de resistência já existia desde a década de 50. O que o golpe faz é mudar o foco para o enfrentamento ao regime”, explica. De acordo com a pesquisadora, porém, isso só é possível porque já havia vários artistas de esquerda. “Existem inclusive dúvidas se as peças que conhecemos hoje eram de fato de seus autores, ou se a censura não tinha ali uma autoria compartilhada”, questiona. Outro elemento relativizador destacado pela professora é a valorização das questões de esquerda entre a classe média estudantil que consumia cultura na época. “Paulo Autran já era o grande ator do teatro brasileiro quando faz ‘Liberdade, Liberdade’. E ele afirma o quanto era importante resistir à ditadura e o quanto ele se sentiu humano. Mas não se pode perder de vista que era um grande negócio”, problematiza, acrescentando que um dos motivos pelos quais a peça ficou em cartaz por dois anos foi porque o general Castelo Branco era fã de Autran e receava a reação da opinião pública. Ela explica que a “esquerda festiva” se tornou um termo pejorativo, mas o fato é que se trata de uma época em que os artistas tinham que viver sem leis de incentivo. Era uma outra lógica, em que o público financiava o espetáculo. “Tinha que pensar na censura, em ser politicamente engajado e em sobreviver. Se uma peça não fosse viável financeiramente, ela não seria feita. Ninguém fez teatro de resistência gratuito, nem o Paulo Autran. Isso não tira o mérito, nem a importância, só problematiza o sujeito histórico”, analisa. A importância desse lado econômico explica ainda por que, apesar de ter sido a arte mais engajada, o teatro da época não tem o mesmo reconhecimento que a música. “Boa parte das canções consideradas ícones são músicas de festival. E o sucesso que elas fizeram não é por acaso, mas porque foram amplificadas numa escala que até então não se conhecia, com a consolidação da televisão”, avalia Pinto Furtado. “Imagina o que seria de Elis Regina sem a TV para transmitir a performance dela para “Arrastão” no festival de 1965”, provoca Barud. A pesquisadora ressalta também que quem a TV atingiu nos anos 1970 foi a classe média. “Ao mesmo tempo em que isso significa uma perda brusca de público para o teatro e o cinema, ela alavanca essas músicas”, pondera. Além disso, a pesquisadora considera a tradição brasileira. “Na França, o que se sobrepõe é a literatura. No Brasil, há um grande número de analfabetos, ainda maior naquela época. Não sei se a música foi mais combativa, mas foi a manifestação artística mais democrática, que chegou mais ao público”, reflete. Para Furtado e Barud, porém, o principal legado desses artistas foi produzir uma agenda política relevante para o indivíduo – para sua sexualidade, intimidade e subjetividade. “Foi uma certa revisitação do 68 francês sob uma ótica brasileira. Um movimento que colocou em pauta a questão do indivíduo, portador de direitos e necessidades que precisam ser consideradas no discurso político”, argumenta Furtado. “Em 1968, Chico escreve ‘Ela Desatinou’, que é pura subjetividade. ‘Eles não Usam Black-Tie’ não é a luta de classes, é o sujeito: a esposa grávida, a briga com o pai. ‘Liberdade, Liberdade’ não falava da ditadura, mas sim de liberdade. Existia um universalismo nessas temáticas que permitiam atingir o regime, assim como o espectador no que ele tinha de sensível, na experiência de estar vivo”, sintetiza Barud. 

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