Olhos vendados para o inferno

Regime usava casas abandonadas e sítios em locais remotos para prender e torturar militantes

iG Minas Gerais | Aline Labbate |

Para além das delegacias, dos regimentos militares, dos departamentos de operações especiais, quando o assunto era tortura de presos políticos, o aparato do regime militar se ramificava em porões desconhecidos, casas abandonadas, sítios em locais remotos. Levantamento do projeto Brasil Nunca Mais aponta pelo menos 246 pontos clandestinos de tortura no país. Mas a quantidade pode ser ainda maior. A identificação dos lugares se torna um desafio, já que os militantes eram levados para os locais com os olhos vendados e, na maioria das vezes, a tortura tinha um objetivo: a morte.

Uma casa no bairro Renascença, região Nordeste da capital, é apontada por ex-presos políticos ao Projeto República como um destes locais. O bairro é daqueles em que ainda se usa colocar a cadeira no passeio para conversar com os vizinhos. Bem ali, na rua Borborema, um conjunto de prédios recém-construídos pode esconder o que cerca de 40 anos atrás foi um dos porões da ditadura.

Nos anos de chumbo, uma casa abandonada construída num terreno íngreme, cercada por um muro de pedras, teria sido palco de cenas aterrorizantes de tortura. Para lá, militares e outros agentes da ditadura levariam os opositores ao governo. Na maioria das vezes, o objetivo era “desaparecer” com o “comunista subversivo”.

Do centro clandestino, pouca coisa se sabe hoje. Os vizinhos mais antigos puxam os boatos pelo fio da memória. “Eu ouvia as pessoas dizerem que lá era lugar de tortura”, garante o corretor de imóveis Nilton Magalhães Filho, 46, que morou em frente à tal casa na década de 1990.

Outro vizinho conta que o dono do imóvel era um “delegado de polícia” e que a casa era a única da região que possuía um telefone no início da década de 1960. “Ele deixava as pessoas usarem o telefone. Era solteiro, meio excêntrico”, conta o morador, que prefere não se identificar.

Soldado do Exército em 1964 e morador do bairro na época, o instrutor de trânsito Antônio Manini Teixeira, 69, diz que oficialmente nunca soube da casa, mas ouviu os boatos. “As pessoas falavam que essa casa, no alto do morro, era ponto de tortura, de prisão de elementos”, lembra.

Moradora do bairro desde os 2 anos de idade, a jornalista Neide Pessoa Couto, hoje com 77, representou o Sindicato dos Jornalistas por 12 anos no Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos. Pelas mãos dela, passaram dezenas de processos de presos do regime. “Eu nunca vi referência a essa casa. Mas li inúmeros relatos de pessoas que foram levadas vendadas para locais de tortura”, conta.

A casa faz parte de um relatório do Projeto República, da UFMG, que será encaminhado à Comissão Nacional da Verdade (CNV). Segundo a coordenadora da pesquisa, professora Heloísa Starling, o documento vai apontar outros locais de tortura clandestinos na capital. Os números finais serão apresentados em audiência pública da CNV, provavelmente no próximo dia 7.

A própria equipe do Projeto República não conseguiu obter o endereço do imóvel no Renascença. A reportagem de O TEMPO percorreu o bairro procurando informações que pudessem levar à tal casa. Fomos atrás de um dos moradores mais antigos: Jadir Ambrósio, sambista da velha guarda e autor do hino do Cruzeiro. Como ele está hospitalizado há três meses, quem nos atendeu foi o filho, que indicou um jornalista responsável pela revista mensal do bairro. Na casa de Carlos Virgílio, encontramos Emerson, que se lembrou de uma antiga delegacia no bairro. Era a tal casa que hoje dá lugar a um conjunto de prédios.

Os vizinhos garantem que lá nunca funcionou delegacia, mas os boatos de tortura existiram. O aspecto lúgubre da residência abandonada com muro alto de pedra e cheia de grandes árvores povoou as brincadeiras infantis nas décadas seguintes à redemocratização. Já na segunda metade dos anos 1980, os moleques se arriscavam na “casa mal-assombrada”, de onde se ouviam “barulhos de correntes”.

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