Aparelhos: discrição e sigilo

Resistência era articulada em apartamentos disfarçados de república de estudantes

iG Minas Gerais | Aline Labbate Tâmara Teixeira |

Uma casa simples em um bairro residencial ou um apartamento modesto no centro da capital mineira. Jovens estudantes, com calça jeans e camiseta, entram e saem, com mochilas nas costas. O cenário é a segunda metade da década de 1960. Nas ruas, o Exército cuida para que a cidade funcione conforme os conceitos de “normalidade” e “tranquilidade”. No interior das tais residências, os jovens são militantes que tramam seus planos para restabelecer a liberdade e a democracia.

Não é fácil ser oposição a um regime ditatorial. Tudo precisa ser meticulosamente planejado para funcionar perfeitamente. Daí o nome “aparelho”. Assim eram chamados os locais onde os militantes se organizavam. Discrição e sigilo eram as principais regras e sinônimos de sobrevivência. Para manter as aparências, lembra Maurício Paiva, 69, ex-integrante de um dos principais grupos de resistência, o Colina, um casal do grupo costumava alugar a casa como morador.

“Assim era mais fácil montar uma história em uma situação difícil. Mas se não tinha um casal, era a fachada para uma república de jovens estudantes. Um colega não conhecia o outro. Jamais saíamos com os nomes verdadeiros, sempre nos tratamos por codinomes. Isso para evitar o risco de algum colega torturado ‘abrir’ os demais. As reuniões eram sempre à noite porque as pessoas tinham seus compromissos. De dia, tínhamos uma vida acima de qualquer suspeita para o regime e a família”, lembra.

Antônio Faria Lopes, 77, conta que os vizinhos dos aparelhos não suspeitavam de nada. “Não podíamos dizer a verdade até pela segurança deles. Sempre que encontrávamos alguém na rua, tínhamos uma senha que pudesse nos identificar”, lembra o jornalista, que chegou a ser torturado e condenado a 18 anos por ser “agente da União Soviética, que queria impedir o avanço das tropas do Exército no Brasil”.

Dentro dos aparelhos, os jovens planejavam sequestros de autoridades, resgates de presos políticos, enfrentamentos armados e assaltos a bancos para financiar a resistência. “Cada um pertencia a um setor e só sabia o necessário para militar”, conta Paiva, que pertencia à logística.

“Tínhamos a missão de levantar dinheiro com assaltos a banco ou contribuições. Queríamos instalar uma guerrilha no campo e, além disso, manter os colegas na clandestinidade era dispendioso”, conta Paiva, que foi preso e torturado por um ano e meio.

Cerco fechado. À medida que o tempo passava, os opositores aos militares se avolumavam, e o cerco se fechava. Não dava para fixar raízes, e a vida era nômade. A ex-militante Gilse Cosenza, 70, cunhada do cartunista Henfil, lembra que as pessoas não andavam em grupo, chegavam sozinhas aos aparelhos, e que o local era automaticamente trocado quando um colega era capturado pelo regime.

“Se ele não resistisse à tortura, poderia ‘abrir’ o endereço. Quando alguém sumia por um tempo, trocávamos de casa. O tempo de permanência podia ser uma semana ou um ano”, conta Gilse.

Paiva revela que, em 1964, o Colina ocupou três endereços diferentes nos bairros São Geraldo, Santa Efigênia e Santa Inês.

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