Resistir é preciso, viver não

Militância da resistência, formada principalmente por estudantes, se organizou em várias correntes

iG Minas Gerais | Lucas Pavanelli |

Invasão. Tropas da Polícia Militar de Minas ocuparam a Escola de Direito da UFMG, considerada foco da resistência
Proj. República/UFMG - 1968
Invasão. Tropas da Polícia Militar de Minas ocuparam a Escola de Direito da UFMG, considerada foco da resistência

“Foi em Belo Horizonte onde o movimento estudantil se reorganizou”, recorda Waldo Silva, que foi presidente do Diretório Acadêmico (DA) da Faculdade de Filosofia da UFMG. A capital, no centro do mapa do golpe militar de 1964, teve destaque também na resistência ao regime, sobretudo por parte dos estudantes. Influenciados pela Revolução Cubana, pela revolução sexual e pelos Beatles, o pensamento do jovem dos anos 60 e 70 era, mais do que nunca, o de “mudar o mundo”.

Mesmo antes do golpe, os DAs e outras organizações estudantis viviam anos de efervescência política. A consequência foi que um regime de ação repressiva e de liberdade restrita recebeu, como reação, a resistência.

Waldo, que foi preso por quatro vezes, recorda momentos pontuais que serviram como catalisadores do sentimento da juventude. Em 1965, o movimento estudantil organizou uma passeata contra a intervenção norte-americana na República Dominicana. Um ano depois, alunos do curso de odontologia da UFMG saíram em passeata com um cartaz irônico: “Abaixo a dentadura”. Em 1968, os estudantes participaram, junto às lideranças operárias, da famosa greve de Contagem. Foram reprimidos e resistiram.

O ano que não acabou, aliás, colaborou para a radicalização do movimento estudantil, principalmente com a promulgação do AI-5. Foi também em 1968 que morreu o líder da Revolução Cubana, Che Guevara, e que os Beatles lançaram “Revolution 1”, no antológico “Álbum Branco”.

Quem integrava grupos políticos de resistência à ditadura optou pela luta armada. Em Belo Horizonte ganharam corpo movimentos que se espalharam pelo país, como a Ação Popular (AP), a Política Operária (Polop) e o Comando de Libertação Nacional (Colina). Os DAs eram comandados por alguns desses grupos.

“Na UFMG, por exemplo, a turma do direito era mais ligada à AP. Já a arquitetura, filosofia e engenharia, à Polop”, recorda Leovegildo Pereira Leal, que estudou na primeira.

Outro foco de resistência na capital mineira foi um grupo de religiosos ligados à Teologia da Libertação, que abrigaram estudantes e militantes de esquerda.

“Aqui, no Carmo, nós abríamos espaço para acolher movimentos e pessoas que careciam de espaço para reuniões e, às vezes, até hospedagem para fugitivos. Razão por que éramos chamados pelos homens do poder de freis comunistas”, recorda frei Cláudio van Balen, cujo nome esteve em uma lista de 30 religiosos processados pelo regime. Foi absolvido em uma ação que durou quatro anos. “Gloriamo-nos de ter resistido criativa e corajosamente às violências da ditadura”, conclui.

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